A barba desgrenhada, os cabelos sujos, a roupa puída, os olhos perdidos e um chapéu de confederado com um furo no lado esquerdo derreado na cabeça. Assim aquele homem se encontrava sentado, solitário, apenas com um violão a tira colo, e sua voz rouca soando pelo saguão da rodoviária. O violão, por sinal, tinha um remendo de fita marrom no braço e cordas improvisadas, mas o som não era de todo ruim, pois estava bem afinado. Era de corpo pequeno, mas o som era bonito. A voz do homem também parecia pequena, mas era bonita. Apesar da rouquidão, era pequena. Apesar do inglês meio tupiniquim, era bonita. E sim. Ele cantava em inglês. Cantava Johnny Cash e Bob Dylan.
De repente, começou a tocar Blowin’ in the Wind. Mas cantava um pouco diferente. Cantava a primeira estrofe com partes das outras estrofes, e depois a segunda parte era inventada por ele mesmo:
How many roads must a man walk down,
Before you call him a man?
Yes and how many times must a man look up,
Before he can see the sky?
Yes and how many times can a man turn his head,
Pretend that he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind
How many houses must a man lives in,
Before he calls it a home?
Yes and how many women must a man lives together,
Before he calls her a lover?
The answer, my friend, is hidin’ in the rubbish
The answer is hidin’ in the rubbish
Fiquei ouvindo ele algum tempo, surpreso com a invencionice. Ele me olhou e perguntou se eu não daria nada. Coloquei uma nota de cinco no pote e ele agradeceu com um toque no chapéu. Aproveitei a pausa para perguntar como ele sabia inglês. Disse que de onde veio todas as crianças aprendiam inglês. E ele sabia um pouco mais por causa da música, que sempre amara. Perguntei de onde ele conhecia Johnny Cash e Bob Dylan. Disse que seu pai os apresentara quando ainda era criança e já começara a aprender violão.
Ele era carroceiro e levava tudo para reciclagem, mas ficava com algumas coisas. Um dia achou o violão e os papéis no lixo. Se perguntou por que alguém teria jogado aquilo fora: “música é a única coisa de bom nessa vida”. Eu disse que talvez fosse alguém desapontado consigo mesmo e com sua música. Ele me olhou estranho. Eu me senti estranho. Ele riu e disse que essa deveria ser uma pessoa mesmo muito triste. Daí continuou sua história. Disse que quando viu o violão lembrou quando tocava com o pai e os amigos no interior. Ficou com saudade e o concertou. Pegou as folhas e tentou lembrar como era tocar. Fazia realmente muito tempo. Eu disse que estava boa, dentro do ritmo.
Eu perguntei como ele tinha vindo parar na capital. Contou que, como todo músico do interior de dezenove, vinte anos, veio com o sonho do estrelato. As pessoas da cidade dele diziam que ele era bom. Veio com pouco dinheiro e muita convicção: “mas isso só mesmo não basta”. Tocou em alguns bares, tentou mostrar composição própria pra alguns radialistas, mas nada. Não conseguia muito, a não ser tocar em bares e ruas. Ainda tinha dinheiro para voltar, mas que nisso nem pensava porque voltar daquele jeito era vergonha. E não queria acabar como peão de estância, depois que conheceu a cidade.
Ficou. Tentou mais um pouco, mas o dinheiro acabou. O pai não tinha mais pra mandar. Acabou indo viver na rua: primeiro cantando. Mas com o som eletrônico, o trabalho nos bares era mais disputado e ele não tinha dinheiro pra equipamento melhor. Precisaria de um parceiro com teclado, no mínimo, mas não conhecia muita gente. Se obrigou a vender tudo, até mesmo o violão, e foi ser catador de lixo. O pouco que ganhava era para viver, mas tentava sempre guardar um pouco e juntar a passagem de volta. Depois de tudo que tinha passado, voltou a preferir ser peão de estância. Depois de um tempo, achou o violão e as folhas. Estava tão cansado que resolveu tentar ganhar dinheiro de outra forma. E lá estava ele, na rodoviária, tentando juntar o resto da passagem.
Pedi quanto ainda faltava. Eu pagaria o resto pelo violão e as folhas. Ele olhou com esperteza para mim e depois para o violão. Disse que esperava voltar com ele porque tinha se apegado. Como eu não respondi nada, ele me olhou de volta e pediu porque eu queria aquele lixo velho. Porque fui eu que joguei fora, eu respondi. Ele me olhou nos olhos e eu mantive o olhar. Não sei bem o que tinha naquele olhar. Gostaria de ter descoberto. Me fez pensar muito. Mas realmente não sei.
Depois disso ele aceitou a oferta. Eu voltei para casa muito contemplativo e cheio de esperanças, junto com o violão e as folhas velhas.
terça-feira, 29 de março de 2011
segunda-feira, 28 de março de 2011
Entre Tapas e Beijos
Ele era um garotinho chamado Hermes que adorava imaginar. Junto com seus amigos recriava, na simples rua, os cenários elaborados para uma perseguição de polícia e ladrão; uma batalha medieval; um duelo entre pistoleiros do oeste; um campo de futebol para os craques da seleção nacional.
Dar vida aos seus brinquedos dentro de casa também era sua especialidade; criando histórias como as assistidas na televisão.
Certo dia, o pequeno Hermes achou um objeto quadrado, grosso, com uma capa preta e arabescos dourados. Abriu-o e viu apenas inúmeras figuras minúsculas, pretas e sem graça. Pediu ao pai o que era aquilo, ao que recebeu a resposta enigmática: um livro. O que viria a ser um livro? ele quis saber, e seu pai explicou que o livro contava histórias. O menino duvidou, pois histórias eram aquelas que ele assistia na televisão: divertidas e cheias de imagens. O pai sorriu e no dia seguinte trouxe para o filho um livro carregado de figuras coloridas. Uma nova experiência se abriu a Hermes. Tal qual um aventureiro explorando um novo mundo, ele devastava as imagens em busca de sentidos e histórias intrigantes. No início, os pais liam as palavras que acompanhavam os desenhos, mas ele não desgrudava dos livros mesmo quando não havia ninguém para lê-los para si. Inventava novas histórias, criava novas situações para aqueles personagens ali desenhados, enfim, imaginava e criava.
Foi quando, finalmente, disseram que ele iria aprender a ler e escrever na escola. Ficou excitado com a possibilidade de ele mesmo ler seus livros e, depois, ele mesmo criar suas próprias histórias. Foi imensa sua decepção, no entanto, quando descobriu que ler e escrever era tão chato quanto fazer contas. Tinha que decorar aquelas coisas chatas; tinha regras a seguir. Ninguém lhe avisou que existiam regras para escrever; ninguém lhe disse que tudo aquilo que ele imaginava livre e solto na sua cabeça, sem regra nenhuma, tinha de ser domesticado para poder ser posto no papel. Naquele momento, morreu, no pequeno Hermes, a vontade de escrever suas histórias. Preferia olhar televisão, imaginar as coisas e recriá-las no seu quarto, vestindo-se como seus personagens preferidos e montando cenários; afinal, para isso, não havia regras.
Anos passaram em que Hermes foi cada vez mais se decepcionando com esse tal de português. Por que tinha de ser tão difícil organizar aquilo que já estava pronto na sua cabeça? Ele tropeçava nas regras que não decorava e era obrigado a escrever coisas que não gostava. Não entendia como a professora podia dizer que estava errada uma frase escrita se ela fazia todo o sentido e qualquer um o entendia quando ele a falava.
Apesar de toda aquela dogmática experiência, a escolástica não conseguiu construir uma muralha entre ele e as histórias. Nem mesmo um imperador chinês poderia acabar com os livros na vida de Hermes, pois essa paixão era anterior e mais forte do que a cadeia das regras gramaticais. Dom Quixote e As Viagens de Gulliver nas versões infantis, A série Vagalume, Codinome Duda, Sherlock Holmes, Agatha Christie... Aos poucos Hermes percebia que lendo escrevia melhor e que só precisava decorar as malditas regras para as provas.
No ensino médio, até mesmo sua convivência com a gramática mudou; uma professora nova incentivou a escrita e tentou mostrar para ele e seus colegas como era mais fácil entender regras que encontravam no próprio texto. Hermes ainda não conseguia se relacionar melhor com elas, pois estava há muito tempo inculcado daquela decoreba safada que não o deixava pensar direito, mas gostava das aulas de redação onde podia exercer a escrita, fosse dando opiniões sobre assuntos recorrentes – como era bom ver suas idéias sendo postas no papel e, depois, sendo lidas e debatidas –, fosse narrando histórias que sua imaginação não cansava de criar.
Quando já pensava no que fazer da vida pós-escola, sua professora de português sugeriu que ele estudasse letras. A opinião dela era muito importante e, mesmo que nunca houvesse cogitado isso, pensou com carinho. Mas o fato era que ele e o português “correto” (na figura das regras gramaticais) ainda eram apenas amigos distantes que não se davam muito; sua relação era cheia de “não me toques”, “disse que disse” e eles realmente não se entendiam – ou era só Hermes quem não entendia o outro? Sabia que a sugestão fora dada porque ele escrevia bem – pelo menos era a opinião da professora e de alguns colegas – e não achava que só isso era motivo para agüentar anos estudando gramática. Sua decisão foi, logicamente, o jornalismo.
Seis anos se passaram em um curso onde escrever era meio chato para ele porque, se não estudava leis do português, era obrigado a aprender as leis do texto jornalístico, que em nada deviam em chatice. Se algo era certo na vida de Hermes, é que não gostava de leis em atividades que deveriam dar prazer. Por isso, trocou o texto pela imagem. Sempre gostara de cinema e televisão; eram outras duas formas de se contar histórias – e ele cada vez mais achava que isso era o que gostava de fazer. Pensava no cinema como a linguagem do presente que ainda seria, por muito tempo, a linguagem do futuro. Gostava de aprender as regras dele porque pareciam fazer mais sentido em sua cabeça – afinal, não as aprendera da mesma forma que as regras da língua.
No fim dos seis anos, porém, apesar de toda aquela emoção da nova paixão, Hermes ainda não se desgrudara dos livros. Muito pelo contrário, lia cada vez mais. Começou, por conta própria e sem nem saber direito, a se interessar pela forma como cada escritor moldava a língua para contar sua história. Além do cinema, a literatura voltou a ser um foco de muito interesse. E, por causa dela, ele voltou a iniciar um relacionamento com a gramática.
Voltara como se fosse uma velha amiga que há muito tempo não via; uma amiga com quem sempre brigava, nunca se acertava, mas que estava sempre presente (mais ou menos como uma mãe). E foi como se aquele tempo em que passaram separados um do outro, junto com o amadurecimento natural do rapaz, melhorasse a relação (exatamente como com uma mãe), e houve paz entre os dois.
A paz só veio porque Hermes percebeu a importância daquelas regras para poder fazer o que tanto gostava, mas mais do que isso: percebera que não eram regras tão rígidas assim; que podia lidar com elas de forma mais amigável; podia dialogar com elas; usá-las para seu bem, desde que soubesse o que estava fazendo. E ele soube, a partir do momento em que finalmente começou o curso de letras, que estaria dando um novo passo nessa relação. Uma relação que, entre tapas e beijos, vai ser a mais duradoura da sua vida.
Esse foi um texto escrito para a cadeira de Gramática e Estilo. Foi pedido que escrevêssemos sobre nossa relação com a linguagem. Como todo texto que tem tema pré-determinado, eu tive dificuldade em escrevê-lo, mas fiquei satisfeito que tenha saído um texto curto, pois normalmente escrevo muito. É também um texto simples e sem muitas pretensões. Vale ressaltar que ele é apenas meio autobiográfico, pois realmente não tenho lembranças da época em que me alfabetizei, por isso tive que inventar. Mesmo assim, acho que o sentimento contido é real.
Dar vida aos seus brinquedos dentro de casa também era sua especialidade; criando histórias como as assistidas na televisão.
Certo dia, o pequeno Hermes achou um objeto quadrado, grosso, com uma capa preta e arabescos dourados. Abriu-o e viu apenas inúmeras figuras minúsculas, pretas e sem graça. Pediu ao pai o que era aquilo, ao que recebeu a resposta enigmática: um livro. O que viria a ser um livro? ele quis saber, e seu pai explicou que o livro contava histórias. O menino duvidou, pois histórias eram aquelas que ele assistia na televisão: divertidas e cheias de imagens. O pai sorriu e no dia seguinte trouxe para o filho um livro carregado de figuras coloridas. Uma nova experiência se abriu a Hermes. Tal qual um aventureiro explorando um novo mundo, ele devastava as imagens em busca de sentidos e histórias intrigantes. No início, os pais liam as palavras que acompanhavam os desenhos, mas ele não desgrudava dos livros mesmo quando não havia ninguém para lê-los para si. Inventava novas histórias, criava novas situações para aqueles personagens ali desenhados, enfim, imaginava e criava.
Foi quando, finalmente, disseram que ele iria aprender a ler e escrever na escola. Ficou excitado com a possibilidade de ele mesmo ler seus livros e, depois, ele mesmo criar suas próprias histórias. Foi imensa sua decepção, no entanto, quando descobriu que ler e escrever era tão chato quanto fazer contas. Tinha que decorar aquelas coisas chatas; tinha regras a seguir. Ninguém lhe avisou que existiam regras para escrever; ninguém lhe disse que tudo aquilo que ele imaginava livre e solto na sua cabeça, sem regra nenhuma, tinha de ser domesticado para poder ser posto no papel. Naquele momento, morreu, no pequeno Hermes, a vontade de escrever suas histórias. Preferia olhar televisão, imaginar as coisas e recriá-las no seu quarto, vestindo-se como seus personagens preferidos e montando cenários; afinal, para isso, não havia regras.
Anos passaram em que Hermes foi cada vez mais se decepcionando com esse tal de português. Por que tinha de ser tão difícil organizar aquilo que já estava pronto na sua cabeça? Ele tropeçava nas regras que não decorava e era obrigado a escrever coisas que não gostava. Não entendia como a professora podia dizer que estava errada uma frase escrita se ela fazia todo o sentido e qualquer um o entendia quando ele a falava.
Apesar de toda aquela dogmática experiência, a escolástica não conseguiu construir uma muralha entre ele e as histórias. Nem mesmo um imperador chinês poderia acabar com os livros na vida de Hermes, pois essa paixão era anterior e mais forte do que a cadeia das regras gramaticais. Dom Quixote e As Viagens de Gulliver nas versões infantis, A série Vagalume, Codinome Duda, Sherlock Holmes, Agatha Christie... Aos poucos Hermes percebia que lendo escrevia melhor e que só precisava decorar as malditas regras para as provas.
No ensino médio, até mesmo sua convivência com a gramática mudou; uma professora nova incentivou a escrita e tentou mostrar para ele e seus colegas como era mais fácil entender regras que encontravam no próprio texto. Hermes ainda não conseguia se relacionar melhor com elas, pois estava há muito tempo inculcado daquela decoreba safada que não o deixava pensar direito, mas gostava das aulas de redação onde podia exercer a escrita, fosse dando opiniões sobre assuntos recorrentes – como era bom ver suas idéias sendo postas no papel e, depois, sendo lidas e debatidas –, fosse narrando histórias que sua imaginação não cansava de criar.
Quando já pensava no que fazer da vida pós-escola, sua professora de português sugeriu que ele estudasse letras. A opinião dela era muito importante e, mesmo que nunca houvesse cogitado isso, pensou com carinho. Mas o fato era que ele e o português “correto” (na figura das regras gramaticais) ainda eram apenas amigos distantes que não se davam muito; sua relação era cheia de “não me toques”, “disse que disse” e eles realmente não se entendiam – ou era só Hermes quem não entendia o outro? Sabia que a sugestão fora dada porque ele escrevia bem – pelo menos era a opinião da professora e de alguns colegas – e não achava que só isso era motivo para agüentar anos estudando gramática. Sua decisão foi, logicamente, o jornalismo.
Seis anos se passaram em um curso onde escrever era meio chato para ele porque, se não estudava leis do português, era obrigado a aprender as leis do texto jornalístico, que em nada deviam em chatice. Se algo era certo na vida de Hermes, é que não gostava de leis em atividades que deveriam dar prazer. Por isso, trocou o texto pela imagem. Sempre gostara de cinema e televisão; eram outras duas formas de se contar histórias – e ele cada vez mais achava que isso era o que gostava de fazer. Pensava no cinema como a linguagem do presente que ainda seria, por muito tempo, a linguagem do futuro. Gostava de aprender as regras dele porque pareciam fazer mais sentido em sua cabeça – afinal, não as aprendera da mesma forma que as regras da língua.
No fim dos seis anos, porém, apesar de toda aquela emoção da nova paixão, Hermes ainda não se desgrudara dos livros. Muito pelo contrário, lia cada vez mais. Começou, por conta própria e sem nem saber direito, a se interessar pela forma como cada escritor moldava a língua para contar sua história. Além do cinema, a literatura voltou a ser um foco de muito interesse. E, por causa dela, ele voltou a iniciar um relacionamento com a gramática.
Voltara como se fosse uma velha amiga que há muito tempo não via; uma amiga com quem sempre brigava, nunca se acertava, mas que estava sempre presente (mais ou menos como uma mãe). E foi como se aquele tempo em que passaram separados um do outro, junto com o amadurecimento natural do rapaz, melhorasse a relação (exatamente como com uma mãe), e houve paz entre os dois.
A paz só veio porque Hermes percebeu a importância daquelas regras para poder fazer o que tanto gostava, mas mais do que isso: percebera que não eram regras tão rígidas assim; que podia lidar com elas de forma mais amigável; podia dialogar com elas; usá-las para seu bem, desde que soubesse o que estava fazendo. E ele soube, a partir do momento em que finalmente começou o curso de letras, que estaria dando um novo passo nessa relação. Uma relação que, entre tapas e beijos, vai ser a mais duradoura da sua vida.
Esse foi um texto escrito para a cadeira de Gramática e Estilo. Foi pedido que escrevêssemos sobre nossa relação com a linguagem. Como todo texto que tem tema pré-determinado, eu tive dificuldade em escrevê-lo, mas fiquei satisfeito que tenha saído um texto curto, pois normalmente escrevo muito. É também um texto simples e sem muitas pretensões. Vale ressaltar que ele é apenas meio autobiográfico, pois realmente não tenho lembranças da época em que me alfabetizei, por isso tive que inventar. Mesmo assim, acho que o sentimento contido é real.
quinta-feira, 17 de março de 2011
História Simples Um - Apenas dúvidas
Para animá-la, ele colocou Sprawl II, fez uma dancinha na frente dela e puxou-a para dançar junto. Então falou com ela sobre o futuro:
- Já imaginou que daqui a trinta, quarenta anos essa música vai tocar e nós, velhos, vamos dançar de forma ridícula, relembrando os velhos tempos e rindo?
Começaram a falar disso. Como seria? Não tentavam imaginar tecnologias, cidades, pessoas. Era muito difícil. Apenas música. Se fosse para guardar hoje as bandas que possivelmente iriam tocar como grandes sucessos do passado (daqui trinta, quarenta anos), quais seriam? Arcade Fire era certo para os dois.
- Radiohead – ela disse.
- Radiohead não se dança.
- Não sabia que tinha esse pré-requisito. MGMT.
- Sim. Esses sim. Edward Sharpe and The Magnetics Zeros.
- Só lançaram um CD e só você ouve. Não fizeram muito sucesso. Tem que esperar. Killer, com certeza.
- Artic Monkeys também.
- Swell Season.
- Opa. É exatamente a mesma coisa que Edward Sharpe.
- É difícil.
- Da música foram adiante. Como seriam os filhos deles? Onde morariam? Trabalhariam no que? Será que seriam bem de vida? De que perigos teriam que defender seus filhos? Quais tipos de problemas enfrentariam? Ainda existiria natureza para apreciar? E lugares históricos para visitar? Quais seriam as grandes descobertas ou revoluções? Será que ainda existiria alguma descoberta ou revolução a acontecer? O homem em Marte? O primeiro condomínio na lua? Shopping Centers submarinos? Como seriam os livros que comprariam?
- Ainda existirá? – ele perguntou.
- Acho que sim.
- E nós compraríamos?
- Acho. Não sei nossos filhos. Mas nós...
E se calou como se a pausa disse mais que a fala.
Continuaram. Quais meios de transporte usariam? Ainda seriam necessários? Imaginaram cidades tão grandes e tão populosas que ninguém mais iria percorrer grandes distâncias. Todos iriam apenas viver no seu pequeno subúrbio onde existira tudo.
- Aí. Não diz isso, querido.
- Seria como um retorno a antigamente. Grandes feudos futurísticos.
- Tem gente que acredita que a história é cíclica. Será?
- Talvez nós sejamos a geração a descobrir e vivenciar.
E os filmes? 3D? A tecnologia já era certo. Já está a caminho. Mas e as tramas? Que tipo de histórias seriam contadas? Ainda existiriam histórias a serem contadas? Como seria a beleza das atrizes? Magras ainda? Ou gordinhas novamente? Quais seriam as opções de emprego? Haveria? E as roupas? Tecnologia? Nanotecnologia. E o que viria depois da internet? Será que viria alguma coisa?
- Meu Deus! – ela exasperou-se, querendo soltar-se dele – Prefiro não pensar. Dá um desespero! Parece que tudo está acontecendo tão rápido que nem vamos conseguir chegar lá.
- Será que vamos? – ele perguntou e abraçou-a com todo o ardor do seu corpo e espírito, como que querendo aproveitar o máximo de tempo que lhes restava.
- Já imaginou que daqui a trinta, quarenta anos essa música vai tocar e nós, velhos, vamos dançar de forma ridícula, relembrando os velhos tempos e rindo?
Começaram a falar disso. Como seria? Não tentavam imaginar tecnologias, cidades, pessoas. Era muito difícil. Apenas música. Se fosse para guardar hoje as bandas que possivelmente iriam tocar como grandes sucessos do passado (daqui trinta, quarenta anos), quais seriam? Arcade Fire era certo para os dois.
- Radiohead – ela disse.
- Radiohead não se dança.
- Não sabia que tinha esse pré-requisito. MGMT.
- Sim. Esses sim. Edward Sharpe and The Magnetics Zeros.
- Só lançaram um CD e só você ouve. Não fizeram muito sucesso. Tem que esperar. Killer, com certeza.
- Artic Monkeys também.
- Swell Season.
- Opa. É exatamente a mesma coisa que Edward Sharpe.
- É difícil.
- Da música foram adiante. Como seriam os filhos deles? Onde morariam? Trabalhariam no que? Será que seriam bem de vida? De que perigos teriam que defender seus filhos? Quais tipos de problemas enfrentariam? Ainda existiria natureza para apreciar? E lugares históricos para visitar? Quais seriam as grandes descobertas ou revoluções? Será que ainda existiria alguma descoberta ou revolução a acontecer? O homem em Marte? O primeiro condomínio na lua? Shopping Centers submarinos? Como seriam os livros que comprariam?
- Ainda existirá? – ele perguntou.
- Acho que sim.
- E nós compraríamos?
- Acho. Não sei nossos filhos. Mas nós...
E se calou como se a pausa disse mais que a fala.
Continuaram. Quais meios de transporte usariam? Ainda seriam necessários? Imaginaram cidades tão grandes e tão populosas que ninguém mais iria percorrer grandes distâncias. Todos iriam apenas viver no seu pequeno subúrbio onde existira tudo.
- Aí. Não diz isso, querido.
- Seria como um retorno a antigamente. Grandes feudos futurísticos.
- Tem gente que acredita que a história é cíclica. Será?
- Talvez nós sejamos a geração a descobrir e vivenciar.
E os filmes? 3D? A tecnologia já era certo. Já está a caminho. Mas e as tramas? Que tipo de histórias seriam contadas? Ainda existiriam histórias a serem contadas? Como seria a beleza das atrizes? Magras ainda? Ou gordinhas novamente? Quais seriam as opções de emprego? Haveria? E as roupas? Tecnologia? Nanotecnologia. E o que viria depois da internet? Será que viria alguma coisa?
- Meu Deus! – ela exasperou-se, querendo soltar-se dele – Prefiro não pensar. Dá um desespero! Parece que tudo está acontecendo tão rápido que nem vamos conseguir chegar lá.
- Será que vamos? – ele perguntou e abraçou-a com todo o ardor do seu corpo e espírito, como que querendo aproveitar o máximo de tempo que lhes restava.
domingo, 22 de agosto de 2010
Para amantes do esporte e pessoas comuns
Pra quem já se pegou perguntando, às vezes um tanto decepcionado (como nós gremistas ultimamente), por que raios se mata torcendo por um time de futebol. Por que sofrer por causa de um bando de jogadores que ganha muito bem e que na maioria das vezes parece não estar se importando. Pra você que já esbravejou de raiva dizendo que vai parar de torcer, não vai mais se importar porque isso é perda de tempo, mas que no jogo seguinte ta lá, na frente da TV, grudado no radinho ou mesmo no estádio, novamente roendo unhas e torcendo como nunca. Se você é como eu e outros milhões ao redor do mundo, então você precisa ler o livro Elogio da Beleza Atlética, do alemão, Hans Ulrich Gumbrecht. Um esplendido e divertido tratado que tenta entender por que o esporte fascina tanto o ser humano e, ao mesmo tempo, é sempre diminuído como mero ópio do povo pelos pensadores da academia. Nada melhor que um desses intelectuais para responder à pergunta.
Gumbrecht é professor na universidade de Stanford na Califórnia desde 1989, na área de literatura comparada. Atualmente o professor atua, pesquisando, escrevendo e ensinando nas áreas de literatura da Idade Média e do final dos séculos XVIII e XIX; história e pragmática dos meios de comunicação; epistemologia da cultura do dia-a-dia e sobre a estética do esporte. Figurinha conhecida do público universitário gaúcho, ele já esteve por aqui dando palestra algumas vezes, e estará novamente amanhã, dia 23 de agosto, na UFRGS falando justamente sobre esse livro.
Lançado em 2006, com tradução para o português da Companhia das Letras, o livro tenta responder por que tantas pessoas se identificam com atletas e diferentes esportes sem que isso traga nada de realmente válido para suas vidas práticas. Para tal, Gumbrecht diz querer fugir da visão metafísica ocidental que sempre divide as coisas entre o material e o espiritual e acaba privilegiando o lado espiritual dessa divisão. “As formas produzidas por movimentos corporais e a presença desses corpos – parece afirmar uma voz cheia de credibilidade – simplesmente não podem ser importantes o suficiente para se tornar alvo de preocupação, muito menos para que se escreva sobre elas”. Assim, o professor irá se focar “nos corpos dos atletas, em vez de abandonar o tópico do esporte para ‘interpretar’ esses fenômenos como uma ‘função’ ou uma ‘expressão’ de alguma outra coisa”.
O livro segue uma organização bem clara, com uma linguagem simples, mas cheio de idéias interessantes. A primeira parte é chamada “Definições” e dividida em três capítulos: Elogio, Beleza e Esporte. Aqui está o lado mais teórico e acadêmico onde Gumbrecht busca em Kant uma definição de belo, e também traz termos conhecidos da crítica literária e filosófica como “performance”, “presença”, “significado” e “signo”, ou termos da tradição grega como “agon” e “arete”.
A definição de esporte dada por ele é baseada em pares de oposição que explicam sua idéia de performance. Uma performance baseada na presença como parte física do mundo, e sempre visto como algo além da mera ação, pois marca a capacidade do corpo em ir além, sem que o espectador fique tentando saber qual a intenção do atleta em cada jogada. Ou seja, Gumbrecht ao falar da divisão mente e corpo, coloca o esporte no lado físico, no corpo, como uma performance específica, muito mais forte e real do que a atuação, por exemplo. É quase uma epifania, uma transfiguração dos grandes atletas “em nossa percepção imediata e, mais tarde, em nossa memória”, através do drama da competição.
A segunda parte, intitulada Descontinuidades, traz um apanhado histórico do esporte, tentando mostrar as alterações sofridas, através dos tempos, na preferência do público. A principal questão é a mudança no caráter de “insularidade” do esporte em relação ao dia-a-dia das pessoas: como o esporte está cada vez mais insular, hoje, do que era antigamente. Na Grécia antiga, as primeiras olimpíadas, por exemplo, eram muito mais ligadas à vida cotidiana dos espectadores, assim como em Roma. Acabando com nossa visão romântica do esporte na Grécia antiga, que era, muito provavelmente, bem mais competitivo do que hoje em dia (lembremos que não havia premiação para segundo e terceiro lugar), o autor nos dá uma bela visão da evolução do caráter do esporte, tanto do ponto de vista dos atletas quanto do público.
A terceira parte é dedicada aos Fascínios que o esporte nos causa. “O que gostamos nos esportes, e o que tratarei como objeto dessa experiência, pertence a uma série de fenômenos que fica de algum modo entre a performance e o ato de julgá-la. São movimentos corporais quase sempre já moldados pelas expectativas e pelo apreço que os espectadores levam com eles para o jogo.” Ele, então, explica sete formas de fascínio (Corpos, Sofrimento, Graça, Instrumentos, Formas, Jogadas e Timing) que contribuem para nosso apreço estético do esporte. Discutindo também os esportes que sempre tiveram fascínio (com carros ou animais), os que voltaram de alguma forma a ter (fisiculturismo) e por que o fascínio pelos esportes com bola cresceu tanto nos últimos anos.
A conclusão do livro se intitula Gratidão. Já vou avisando àqueles que chegarem aqui esperando uma resposta reveladora e fácil, entregue de bandeja sobre o porquê gostamos de esportes, que poderão ficar um tanto desapontados. O livro não se propõe a desenvolver o tema até chegar à resposta definitiva e final. O último capítulo, inclusive, a meu ver, é o menos revelador de todos. Porém, para aqueles que gostam de uma leitura em que se vai montando as peças, juntando as informações para se ter uma bela visão do todo, sem esperar que no final ele resuma tudo em um parágrafo, esses entenderão a intenção do final do livro. O título já diz tudo: Gratidão. O encerramento não passa de um agradecimento aos esportistas, aos ídolos do escritor (e aos do leitor através do que estão lendo) que o inspiraram a escrever esse elogio a suas capacidades que tanto nos fascinam.
Àqueles que gostam de esporte, e às pessoas normais que queiram entender por que esse fascínio pela emoção de um jogo, de uma corrida, de uma luta; recomendo essa leitura. Certamente divertida, informativa e instrutiva.
Gumbrecht é professor na universidade de Stanford na Califórnia desde 1989, na área de literatura comparada. Atualmente o professor atua, pesquisando, escrevendo e ensinando nas áreas de literatura da Idade Média e do final dos séculos XVIII e XIX; história e pragmática dos meios de comunicação; epistemologia da cultura do dia-a-dia e sobre a estética do esporte. Figurinha conhecida do público universitário gaúcho, ele já esteve por aqui dando palestra algumas vezes, e estará novamente amanhã, dia 23 de agosto, na UFRGS falando justamente sobre esse livro.
Lançado em 2006, com tradução para o português da Companhia das Letras, o livro tenta responder por que tantas pessoas se identificam com atletas e diferentes esportes sem que isso traga nada de realmente válido para suas vidas práticas. Para tal, Gumbrecht diz querer fugir da visão metafísica ocidental que sempre divide as coisas entre o material e o espiritual e acaba privilegiando o lado espiritual dessa divisão. “As formas produzidas por movimentos corporais e a presença desses corpos – parece afirmar uma voz cheia de credibilidade – simplesmente não podem ser importantes o suficiente para se tornar alvo de preocupação, muito menos para que se escreva sobre elas”. Assim, o professor irá se focar “nos corpos dos atletas, em vez de abandonar o tópico do esporte para ‘interpretar’ esses fenômenos como uma ‘função’ ou uma ‘expressão’ de alguma outra coisa”.
O livro segue uma organização bem clara, com uma linguagem simples, mas cheio de idéias interessantes. A primeira parte é chamada “Definições” e dividida em três capítulos: Elogio, Beleza e Esporte. Aqui está o lado mais teórico e acadêmico onde Gumbrecht busca em Kant uma definição de belo, e também traz termos conhecidos da crítica literária e filosófica como “performance”, “presença”, “significado” e “signo”, ou termos da tradição grega como “agon” e “arete”.
A definição de esporte dada por ele é baseada em pares de oposição que explicam sua idéia de performance. Uma performance baseada na presença como parte física do mundo, e sempre visto como algo além da mera ação, pois marca a capacidade do corpo em ir além, sem que o espectador fique tentando saber qual a intenção do atleta em cada jogada. Ou seja, Gumbrecht ao falar da divisão mente e corpo, coloca o esporte no lado físico, no corpo, como uma performance específica, muito mais forte e real do que a atuação, por exemplo. É quase uma epifania, uma transfiguração dos grandes atletas “em nossa percepção imediata e, mais tarde, em nossa memória”, através do drama da competição.
A segunda parte, intitulada Descontinuidades, traz um apanhado histórico do esporte, tentando mostrar as alterações sofridas, através dos tempos, na preferência do público. A principal questão é a mudança no caráter de “insularidade” do esporte em relação ao dia-a-dia das pessoas: como o esporte está cada vez mais insular, hoje, do que era antigamente. Na Grécia antiga, as primeiras olimpíadas, por exemplo, eram muito mais ligadas à vida cotidiana dos espectadores, assim como em Roma. Acabando com nossa visão romântica do esporte na Grécia antiga, que era, muito provavelmente, bem mais competitivo do que hoje em dia (lembremos que não havia premiação para segundo e terceiro lugar), o autor nos dá uma bela visão da evolução do caráter do esporte, tanto do ponto de vista dos atletas quanto do público.
A terceira parte é dedicada aos Fascínios que o esporte nos causa. “O que gostamos nos esportes, e o que tratarei como objeto dessa experiência, pertence a uma série de fenômenos que fica de algum modo entre a performance e o ato de julgá-la. São movimentos corporais quase sempre já moldados pelas expectativas e pelo apreço que os espectadores levam com eles para o jogo.” Ele, então, explica sete formas de fascínio (Corpos, Sofrimento, Graça, Instrumentos, Formas, Jogadas e Timing) que contribuem para nosso apreço estético do esporte. Discutindo também os esportes que sempre tiveram fascínio (com carros ou animais), os que voltaram de alguma forma a ter (fisiculturismo) e por que o fascínio pelos esportes com bola cresceu tanto nos últimos anos.
A conclusão do livro se intitula Gratidão. Já vou avisando àqueles que chegarem aqui esperando uma resposta reveladora e fácil, entregue de bandeja sobre o porquê gostamos de esportes, que poderão ficar um tanto desapontados. O livro não se propõe a desenvolver o tema até chegar à resposta definitiva e final. O último capítulo, inclusive, a meu ver, é o menos revelador de todos. Porém, para aqueles que gostam de uma leitura em que se vai montando as peças, juntando as informações para se ter uma bela visão do todo, sem esperar que no final ele resuma tudo em um parágrafo, esses entenderão a intenção do final do livro. O título já diz tudo: Gratidão. O encerramento não passa de um agradecimento aos esportistas, aos ídolos do escritor (e aos do leitor através do que estão lendo) que o inspiraram a escrever esse elogio a suas capacidades que tanto nos fascinam.
Àqueles que gostam de esporte, e às pessoas normais que queiram entender por que esse fascínio pela emoção de um jogo, de uma corrida, de uma luta; recomendo essa leitura. Certamente divertida, informativa e instrutiva.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Delírio de Autonomia
Um jovem no fim dos anos 80 e início dos 90 é fã de uma banda. Não importa qual, Guns and Roses, Nirvana, Pearl Jam, U2... Sempre que ouve uma música deles no rádio, precisar possuí-la, ter consigo para escutar a qualuqer hora. Então, ele prepara fitas K7 e fica ligado nas programações das rádios mais rocks e grava, sempre que consegue, uma música da sua banda preferida. É difícil, trabalhoso, mas sempre que obtém exito ele fica satisfeito. A seguir, ele precisa comprar o novo CD que eles lançaram. Quase todos os dias, ele vai à lojinha que tem no centro da cidade. Olha o CD na prateleira, namora-o, pega-o com mãos desejosas e fica lendo o nome das músicas com olhos sonhadores. Imagina-o aberto, o encarte com as letras; imagina-o tocando no seu stereo. Ele ainda não tem dinheiro para comprar o CD, mas planeja formas de conseguir. Ele economiza as mesadas, lava a louça para a mãe, corta a grama para o pai e mesmo assim ainda falta dinheiro. O CD tá caro, ainda mais lançamento.
O jovem precisa de um tênis novo e pede dinheiro ao pai. Ele vai na loja e procura o tênis mais barato porque não se importa com se não está na moda ou se é feio. O dinheiro que sobra junta-se com o que havia ganhado até agora, e, assim, consegue ter o suficiente para comprar o CD. Vai na loja de CDs, finalmente pega aquele objeto com mãos diferentes, com mãos de quem vai possuí-lo. Ele paga o vendedor e sai da loja como uma nova pessoa. Apesar do single do CD estar gravado naquela K7 exaustivamente escutada em casa, agora terá o CD inteiro. Poderá ouvir todas as músicas com calma e deleite. Manuseará o encarte com cheiro de novo. Lerá as letras, tentará traduzí-las. Será um novo mundo; uma nova vida durante meses. O jovem está satisfeito não só com o que ouvirá, mas com a conquista obtida com dificuldade, com espera e paciência, com ardor e esperança.
Nos anos dois mil, um jovem gosta muito de uma banda. Não importa qual, pode até ser várias diferentes. Ele ouve uma música nova da banda e quer muito aquele CD. Ele entra num site, digita algo e com alguns cliques baixa todo o CD. Em dias ele ouvirá tudo, lerá as letras na internet, traduzirá num tradutor online (ou mesmo já encontrará traduzidas) e achará aquilo o máximo porque nem precisou levantar a bunda da cadeira. Mas logo ele ouvirá outra música de outra banda que o interessará também. Então ele esquecerá a banda anterior, baixará o novo CD e o resto você já sabe.
Percebeu a diferença? Notou quanto eu precisei escrever para contar (ainda que resumidamente) como o jovem de antes fazia para ter as músicas da banda preferida, e como o jovem de hoje faz para ter as músicas de qualquer banda que ele quiser? Pois é. Isso parece uma bobagem. Mera caretice de quem não aceita a tecnologia, mas não é. Eu aceito a tecnologia. Tenho vários CDs baixados no meu computador. Mas tenho vários comprados também. A questão não é essa. A questão não é comprar ou deixar de comprar CDs. Ela se estende para um problema bem maior. Essa situação é apenas um modelo aplicável a tudo mais que anda acontecendo por aí.
A geração atual nasce sem aprender como deve superar obstáculos para conseguir o que quer. Eles nascem na era dos "cliques": um, dois, três cliques e você tem o que quiser ao seu dispor. Isso parece bobagem? Pois o que você acha que passa na cabeça de um casal de jovens de 16 e 14 anos que coloca no twitter seu videozinho de intimidades? Se tudo é tão fácil, se não há obstáculos para eu obter o que quero, não há obstáculos para mais nada.
Alguns especialistas chamam esse problema de “delírio de autonomia”. A autonomia do sujeito vem de filósofos modernos. Podemos apontar Descartes como o primeiro a falar do ser humano como autônomo, ao colocar a dúvida como princípio racional para tudo. Porém, é com Kant que essa autonomia se torna a “autonomia da vontade”, que fundamenta o imperativo categórico. Resumidamente, para não ter de ir muito fundo nesse ponto complexo, o imperativo categórico estabelece as três formulações necessárias para que a moral seja autônoma e não baseada em leis externas. Porém, essa autonomia é baseada no respeito e reconhecimento da categoria do “outro” como um fim em si.
No século XIX, esse homem autônomo torna-se o público consumidor necessário ao sistema capitalista. Se você é livre para agir, é livre para comprar. Os dilemas criados nesse século por conta de uma questão tão complexa como a liberdade de cada um para fazer o que quiser, é muito bem trabalhada no livro Crime e Castigo, de Dostoiévsky. O dilema de Raskólhnikov é o de um homem que não sabe até onde vai a sua liberdade moral para agir da forma necessária a obter seus objetivos. Todo o desenrolar psicológico do livro é representativo do problema dessa autonomia. Um bom paralelo a essa situação é o filme Match Point de Woody Allen, que mostra um quase Raskólhnikov atual. O personagem do filme também quer ascender socialmente e bola um plano para isso.
Os dois desfechos mostram bem a diferença de épocas. Raskólhnikov mata a velha usurária para roubar, mas sua consciência o perturba tanto, que ele acaba se entregando à polícia. Todos os argumentos que ele cria para justificar seu ato definham diante de sua moral abalada pelo assassinato. O final do livro chega a ganhar tons esperançosos, ao mostrar como aquele sujeito aprendeu, com seu erro, o que é realmente a autonomia. Já no filme, o personagem principal, após o crime, apesar de um pouco incomodado por sua consciência, não se entrega, segue seu plano e se dá bem.
A diferença entre livro e filme é justamente o que explica o chamado “delírio de autonomia”. Vivemos em uma época em que o outro não é mais alguém a ser respeitado, mas um mero obstáculo a ser vencido. A autonomia, a liberdade de fazer o que for preciso para satisfazer seus desejos, tornou-se um delírio. É o que chamam de “regime psíquico da demanda”: se eu desejo algo, esse simples desejo justifica tudo aquilo que eu fizer para satisfazê-lo. É isso que está implícito na histórinha narrada anteriormente.
O problema está na nossa relação com a realidade. Essa relação se dá através da linguagem. É essa capacidade que nos diferencia dos outros animais. Linguagem não só escrita, mas falada, gestual e outras. Se antes essa relação se dava pelo papel, pelo telefone, pelo jornal impresso, isso trazia dificuldades e obstáculos. Hoje essa relação se dá pela internet, pelo celular. Os obstáculos não existem mais. A lógica da garotada nascida nessa geração é a lógica de quem não vê porque as coisas têm que ser difíceis. Se ele pode ter a música que quiser, o filme que quiser, se pode falar e ver quem ele quiser só através dos cliques e de uma tela, por que seu trabalho de escola não pode ser feito assim também? Por que ele não pode simplesmente recortar e colar o texto? Por que tem que escrever? Por que tem de perder tempo pensando se pode ser rápido como todas as outras coisas que faz?
Parece exagero alarmante? Não é. Não estou aqui pregando os males da internet. Ela trás muitas vantangens também. Inclusive a possibilidade de esse texto estar sendo divulgado. Devemos nos assustar com garotos menores de idade postando seus vídeos eróticos no twitter? Com certeza. Porém, mais do que isso, devemos tentar entender o que está por trás disso. Essa nova forma de ver e se relacionar com o mundo, que implica o fim das dificuldades e dos obstáculos. Pior, que transforma o outro, o ser humano, em um obstáculo capaz de me atrapalhar na busca por meus desejos. Uma realidade líquida, diria Bauman? Talvez sim. Líquida no sentido de sem barreiras, onde os limites se diluem, assim como as identidades, pois elas, afinal, são moldadas por estes limites.
O jovem precisa de um tênis novo e pede dinheiro ao pai. Ele vai na loja e procura o tênis mais barato porque não se importa com se não está na moda ou se é feio. O dinheiro que sobra junta-se com o que havia ganhado até agora, e, assim, consegue ter o suficiente para comprar o CD. Vai na loja de CDs, finalmente pega aquele objeto com mãos diferentes, com mãos de quem vai possuí-lo. Ele paga o vendedor e sai da loja como uma nova pessoa. Apesar do single do CD estar gravado naquela K7 exaustivamente escutada em casa, agora terá o CD inteiro. Poderá ouvir todas as músicas com calma e deleite. Manuseará o encarte com cheiro de novo. Lerá as letras, tentará traduzí-las. Será um novo mundo; uma nova vida durante meses. O jovem está satisfeito não só com o que ouvirá, mas com a conquista obtida com dificuldade, com espera e paciência, com ardor e esperança.
Nos anos dois mil, um jovem gosta muito de uma banda. Não importa qual, pode até ser várias diferentes. Ele ouve uma música nova da banda e quer muito aquele CD. Ele entra num site, digita algo e com alguns cliques baixa todo o CD. Em dias ele ouvirá tudo, lerá as letras na internet, traduzirá num tradutor online (ou mesmo já encontrará traduzidas) e achará aquilo o máximo porque nem precisou levantar a bunda da cadeira. Mas logo ele ouvirá outra música de outra banda que o interessará também. Então ele esquecerá a banda anterior, baixará o novo CD e o resto você já sabe.
Percebeu a diferença? Notou quanto eu precisei escrever para contar (ainda que resumidamente) como o jovem de antes fazia para ter as músicas da banda preferida, e como o jovem de hoje faz para ter as músicas de qualquer banda que ele quiser? Pois é. Isso parece uma bobagem. Mera caretice de quem não aceita a tecnologia, mas não é. Eu aceito a tecnologia. Tenho vários CDs baixados no meu computador. Mas tenho vários comprados também. A questão não é essa. A questão não é comprar ou deixar de comprar CDs. Ela se estende para um problema bem maior. Essa situação é apenas um modelo aplicável a tudo mais que anda acontecendo por aí.
A geração atual nasce sem aprender como deve superar obstáculos para conseguir o que quer. Eles nascem na era dos "cliques": um, dois, três cliques e você tem o que quiser ao seu dispor. Isso parece bobagem? Pois o que você acha que passa na cabeça de um casal de jovens de 16 e 14 anos que coloca no twitter seu videozinho de intimidades? Se tudo é tão fácil, se não há obstáculos para eu obter o que quero, não há obstáculos para mais nada.
Alguns especialistas chamam esse problema de “delírio de autonomia”. A autonomia do sujeito vem de filósofos modernos. Podemos apontar Descartes como o primeiro a falar do ser humano como autônomo, ao colocar a dúvida como princípio racional para tudo. Porém, é com Kant que essa autonomia se torna a “autonomia da vontade”, que fundamenta o imperativo categórico. Resumidamente, para não ter de ir muito fundo nesse ponto complexo, o imperativo categórico estabelece as três formulações necessárias para que a moral seja autônoma e não baseada em leis externas. Porém, essa autonomia é baseada no respeito e reconhecimento da categoria do “outro” como um fim em si.
No século XIX, esse homem autônomo torna-se o público consumidor necessário ao sistema capitalista. Se você é livre para agir, é livre para comprar. Os dilemas criados nesse século por conta de uma questão tão complexa como a liberdade de cada um para fazer o que quiser, é muito bem trabalhada no livro Crime e Castigo, de Dostoiévsky. O dilema de Raskólhnikov é o de um homem que não sabe até onde vai a sua liberdade moral para agir da forma necessária a obter seus objetivos. Todo o desenrolar psicológico do livro é representativo do problema dessa autonomia. Um bom paralelo a essa situação é o filme Match Point de Woody Allen, que mostra um quase Raskólhnikov atual. O personagem do filme também quer ascender socialmente e bola um plano para isso.
Os dois desfechos mostram bem a diferença de épocas. Raskólhnikov mata a velha usurária para roubar, mas sua consciência o perturba tanto, que ele acaba se entregando à polícia. Todos os argumentos que ele cria para justificar seu ato definham diante de sua moral abalada pelo assassinato. O final do livro chega a ganhar tons esperançosos, ao mostrar como aquele sujeito aprendeu, com seu erro, o que é realmente a autonomia. Já no filme, o personagem principal, após o crime, apesar de um pouco incomodado por sua consciência, não se entrega, segue seu plano e se dá bem.
A diferença entre livro e filme é justamente o que explica o chamado “delírio de autonomia”. Vivemos em uma época em que o outro não é mais alguém a ser respeitado, mas um mero obstáculo a ser vencido. A autonomia, a liberdade de fazer o que for preciso para satisfazer seus desejos, tornou-se um delírio. É o que chamam de “regime psíquico da demanda”: se eu desejo algo, esse simples desejo justifica tudo aquilo que eu fizer para satisfazê-lo. É isso que está implícito na histórinha narrada anteriormente.
O problema está na nossa relação com a realidade. Essa relação se dá através da linguagem. É essa capacidade que nos diferencia dos outros animais. Linguagem não só escrita, mas falada, gestual e outras. Se antes essa relação se dava pelo papel, pelo telefone, pelo jornal impresso, isso trazia dificuldades e obstáculos. Hoje essa relação se dá pela internet, pelo celular. Os obstáculos não existem mais. A lógica da garotada nascida nessa geração é a lógica de quem não vê porque as coisas têm que ser difíceis. Se ele pode ter a música que quiser, o filme que quiser, se pode falar e ver quem ele quiser só através dos cliques e de uma tela, por que seu trabalho de escola não pode ser feito assim também? Por que ele não pode simplesmente recortar e colar o texto? Por que tem que escrever? Por que tem de perder tempo pensando se pode ser rápido como todas as outras coisas que faz?
Parece exagero alarmante? Não é. Não estou aqui pregando os males da internet. Ela trás muitas vantangens também. Inclusive a possibilidade de esse texto estar sendo divulgado. Devemos nos assustar com garotos menores de idade postando seus vídeos eróticos no twitter? Com certeza. Porém, mais do que isso, devemos tentar entender o que está por trás disso. Essa nova forma de ver e se relacionar com o mundo, que implica o fim das dificuldades e dos obstáculos. Pior, que transforma o outro, o ser humano, em um obstáculo capaz de me atrapalhar na busca por meus desejos. Uma realidade líquida, diria Bauman? Talvez sim. Líquida no sentido de sem barreiras, onde os limites se diluem, assim como as identidades, pois elas, afinal, são moldadas por estes limites.
Assinar:
Comentários (Atom)