quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O Terreno Baldio da Adolescência - Parte III

Voltando. Lembremos que na útima parte da história, nosso amigo relatou dois acontecimentos que desencadearam sua necessidade de pensar na vida e escrever. Foram eles: a recordação da queda do avião da sua banda preferida, Lynyrd Skynyrd, e a descoberta de que seu irmão montara uma banda emo. Deixamos ele quando estava prestes a entrar no tal terreno baldio que dá título à história. Hoje finalmente saberemos da importância desse terreno. Mais do que isso, veremos um acontecimento importante para a história
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Entrei ali porque me senti muito saudosista. Lembrava bem de tudo que aquele terreno viu. Nosso campo de batalha medieval. A selva onde o Rambo matava vietnamitas. O esconderijo das revistas pornôs. O palco onde a banda de mentira tocou antes de virar de verdade. Também era cenário de lutas dos Cavaleiros do Zodíaco e de corridas de carro depois de assistir Dias de Trovão, ou o céu onde voávamos com nossos jatos de Ases Indomáveis, ou diferentes épocas pra onde íamos no nosso Deloren de papelão, e eu dirigia o Firebird Trans-Am de Burt Reynolds (era o único que gostava de Agarre-me se puderes). Ali se jogava bola e também se levava namoradinhas para as primeiras experiências sexuais antes do sexo propriamente dito. Me lembro bem do dia em que o André, irmão mais velho do Diógenes, pagou uma prostituta pra nos mostrar os peitos ali no canto escuro do muro. Ou quando o Dumas ajudou a gente a fazer sumir os efeitos do primeiro porre. Era ali que a gente tinha discussões homéricas sobre música, como eu defendendo o rock etílico clássico, o Firula defendendo o virtuosismo do progressivo e o Ripa querendo convencer a gente que heavy metal tinha seu valor. O Ripa era aquele cara que é e não é da galera. Meio fora da casinha. Mas o principal problema dele era não entender que a gente não tinha nada contra Black Sabbat, Judas Priest ou Iron Maiden, só também não tinha nada a favor. Ele era fã dessas bandas, e achava que se a gente gostava de rock devia gostar deles também. O Ivan era o único que ficava no meio porque também gostava. Mas nessas horas, até o Firula virava sulista (no sentido musical e americano). Se tinha uma coisa que ele não aturava era heavy metal chupado. Aquele em que um cara vestido todo de couro se esgoelava pra cantar fino, enquanto os outros músicos ficavam disputando quem tocava mais rápido.

Ali a gente também trocava fitas K7 gravadas com novas descobertas musicais. Que na verdade não eram novas porque eram tudo de trinta anos ou mais, mas eram novas pra nós. Ainda vivemos essa época saudosa das fitas, e ali no terreno ficava nosso mercado negro. Ficar ali me fez viajar no tempo. Revi nossas reuniões na casa do Ivan pra jogar vídeo-game, discutir música, repetir as falas do episódio de Chaves e Chapolin que tínhamos visto antes, e reclamar do Dumas que ainda não nos deixava tocar no Penelope. Dumas foi tipo um mentor da galera. Se teve um responsável por moldar nosso bom gosto musical, esse alguém era ele.

Cheguei em casa com uma nostalgia desgraçada. Tinha vontade de parar tudo e viver naquelas lembranças. Fiquei olhando umas fotos enquanto ouvia uma gravação rara do LS ao vivo. Pensei em tudo aquilo. Na total falta de um caminho a seguir, na total desolação da adolescência (ela devia ter me levado a algum lugar, não?). Olhei para os meus pais numa foto e me deu um sentimento de ternura melancólica. Como é isso? Bem, se é que sei explicar (acho que não), mas você sabe. É quando a gente olha e sente aquela vontade de agradecer chorando por que não correspondemos a tudo que fizeram por nós.

No dia seguinte, não agüentei ficar em casa. Era domingo, mas não tínhamos show marcado. Daí, peguei meu fusca e fui andar. Pensar sobre as coisas que estavam acontecendo, ou não acontecendo. Sobre meu irmão e sobre a minha situação. Fiquei a divagar o que meus amigos e eu tínhamos conquistado, mas só me vinham bagaceirisses e inutilidades. Entrei a achar que a raiva contra o meu irmão era contra mim mesmo. Eu e os malditos anos noventa, o que eu ganhei com eles? “Merda nenhuma! Não sobrou nada!” foi minha insólita conclusão em voz alta. Nós simplesmente não fizemos muita coisa. Éramos rebeldes sem sermos maloqueiros, mas também sem ter motivos. Um bando de filhos da classe média que tinham o que precisavam, mas também não tinham tudo. Por isso que, como amantes da música, precisávamos, às vezes, dar um jeito de conseguir comprar aquele CD. Ou até pra coisas mais simples como ver um filme: tinha que ir no cinema ou alugar uma fita. Eram dificuldades que tínhamos de vencer, mas nada que moldasse nosso caráter. Nada que pudesse nos ajudar a decidir quem seriamos. Na verdade, o que nos moldava eram as letras de rock, os filmes no cinema e os seriados na TV.

Agora aqui estava eu, arrastando um curso que não tinha muito a ver comigo e num trabalho tapa furo que nunca seria nada demais, mas que, mesmo assim, eu achava que podia dar em alguma coisa. Como eu já disse, trabalhava numa escola como responsável do almoxarifado. Era meio lendário entre os alunos por causa do fusca, do cabelo comprido, das camisas pretas de flanela e do rock. Mas principalmente porque eu tinha um carrinho de carga pra recolher equipamentos pela escola, e sempre que precisava usá-lo, colocava meus fones, e andava com ele como se fosse um patinete, ouvindo Rock & Roll e passando na frente das salas. Os alunos viam pela porta aberta e adoravam. Os professores até ficavam fulos com a bagunça, mas nunca dava nada. Quem manda dar aula de porta aberta? Eu basicamente tinha que cuidar dos equipamentos de áudio e vídeo. Aceitei o trampo porque precisava e porque achei que no ambiente escolar podia começar a me envolver mais e me identificar com a profissão. Pensei que podia até começar a dar aulas particulares. Mas merda nenhuma. Ninguém precisa de aula particular de história. Precisa de português, matemática... Não história.

Mas voltando àquele mês de outubro. Teve outra coisa ruim que aconteceu. No início desse ano, tinha entrado uma professora nova na escola: Rosana. Uma verdadeira rosa graciosa (desculpa o clichê). Primeiro nos conhecemos como colegas de trabalho, mas lá pela metade do ano eu já estava apaixonado por ela. Era professora de teatro, tinha minha idade e era a coisinha mais linda. Uso diminutivo porque ela era pequena mesmo. Tinha cabelos pelos ombros e, pasmem!, laranja. Isso mesmo, laranja. O que me conquistou ainda mais (que personalidade, pensei). E eu já até sonhava em cantar para ela:
Quando começou a trabalhar lá, fui o primeiro com quem ela precisou fazer amizade por que vivia pedindo material pra mim. E de cara eu já senti algo diferente por aquela garota. No primeiro dia, viu que eu estava com uma camisa do seu Madruga e sorriu, depois disso não tinha mais nada pra mim que não fosse a Rosana. Ela é aquele tipo de mulher que quando sorri não existe mais nada no mundo que não seja aquele sorriso. Depois que ela saiu, eu coloquei meus fones e fiquei ouvindo “She Belongs To Me”, não por causa do título, mas porque eu achava que ela era a letra daquela música.

Demorei a conseguir alguma coisa, mas não porque eu era tímido (anos de palco e álcool acabam com esse tipo de coisa). É que quando ela estava por perto eu ficava meio pateta mesmo. Fazia umas piadas podres. Mas assim mesmo a gente ia se aproximando. Ela também gostava de música. Só que ela era do teatro, e esse povo do teatro parece que gosta de tudo que é tipo de música, de Enya a Metallica. Mas se fosse pra dizer o que ela gostava mesmo (não só curtia), era Chico (o Buarque, obvio), Coldplay (toda mulher gosta), Norah Jones e Blackmore’s Nigth (projetinho obscuro do Ritche Blackmore que eu até achava maneiro, mas só). E nos dávamos bem porque éramos das poucas pessoas da mesma idade naquela escola. A gente tinha os mesmos assuntos e preocupações. O que foi bom pra mim. Eu tinha esse jeito despreocupado com o mundo, e isso fazia ela gostar de estar perto de mim (dizia ela). Eu era divertido. E ela, com mais preocupações com o futuro e tal, me fez começar a pensar um pouco nisso também. Mas até outubro eu só tinha conseguido aproximação na escola mesmo.

Estava pensando muito nela no meio daquela minha crise existencial. Acho que precisava mesmo era de uma namorada nova. Na terça, decidi ir no Penelope beber e jogar conversa fora com o Diógenes e o Firula, cuspir xingamentos à faculdade e arrotar empáfias musicais. Pra minha surpresa não encontrei o Dumas por lá. Era estranho não ver o velho mentor atrás do balcão, com sua cara fechada. Pensamos que podia ser alguma coisa relacionada ao tratamento de câncer no estomago que há tempos ele estava tratando, mas não chegamos à conclusão alguma porque logo estávamos bêbados, nos divertindo com recordações a parte.

Aí que veio o terceiro acontecimento.
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Bom, eu disse que era apenas um acontecimento importante. Descobrimos que nosso amigo está apaixonado. Mas por que será que este fato não está listado entre aquele que desencadearem toda aquele momento reflexivo em que estava? Talvez a resposta esteja na continuidade da história. O próximo acontecimento, listado entre tais fatos importantes, finalmente desencadeará o desenvolvimento de muitas coisas, mas só saberemos disso na próxima parte. Até lá.

domingo, 2 de dezembro de 2012

O Terreno Baldio da Adolescência - Parte II

Bem, na primeira parte, nosso narrador e protagonista estava tentando encontrar um começo para sua história - algo aparentemente difícil pra ele - e tentou achar uma música emblemática para ser o ponto de partida. Não conseguindo, decidiu fazer uma lista, como uma trilha sonora. Acompanharemos então essa lista e, finalmente uma espécie de início da história.
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Eis a lista:

The Who – Baba O’Riley
The Byrds – Turn! Turn! Turn!
Lynyrd skynyrd – Simple Man
Rolling Stones – Paint it Black
Neil Young – My, my, hey, hey (out of blue)
Led Zeppelin – Tangerine
Allman Brothers – Please Call Home
Creedance – Someday Never Comes
Jimmy Hendrix – All Along The Watchtower
The Doors – The End

Não que eu tenha a pretensão de ser um Nick Hornby. Já disse que não quero ser escritor. Mas é meio inevitável quando se gosta de música. Sei lá. Pelo menos você já entende um pouco de quem está escrevendo. Porque eu sou roqueiro, mas não é de qualquer rock que eu gosto. Quando falo de rock, falo daquele que bebe na fonte do blues e do country, com uma veia um pouco psicodélica, mas nada que estrague a pegada, a energia que só as melhores bandas desse estilo têm. Lynyrd Skynyrd, The Allman Brothers e Jimmy Hendrix, essa é a santíssima trindade. As bandas americanas meio que dominam porque acho que foram bem os ingleses que escangalharam tudo com aquele virtuosismo virado em viagens. Digo os que vieram depois da british invasion. Claro que Led está no meu Olimpo, mas dá pra ver (ou antes, ouvir) por quê. Tudo que eles mais queriam era terem nascido na beira do Mississipi, com um bandolim na mão, o blues na veia e bebendo uísque na mamadeira. O melhor do rock inglês. Rolling Stones é bom até virarem chatos. Ou seja, até Exile on Main Street, com algumas exceções. Já os Beatles é meio complicado. Não sou muito fã deles. Acho que Bob Dylan é muito mais importante, e os caras do The Who muito mais músicos, mas em fim... isso é polêmico como o rock. Até gosto da fase do ieieie de bons moços, mas depois ficou uma coisa meio “vejam como somos foda”, e nada de diversão. The Doors, obviamente também está no Olimpo porque a poesia de Jim é foda, e Crystal Ship é a balada do meu melhor beijo. Também curto um pouco o AC/DC porque as letras deles são mais ou menos como eu encarava a vida: vamos aproveitar!

Como já disse, nesse ano (2007), eu estava nesse clima de revisionismo, mas tem um motivo. No mês de outubro, coisas estranhas aconteceram. Mas não fique pensando que vai ser uma história de grandes acontecimentos e mistérios porque não é. É que numa vida cretina como a minha, o que aconteceu já pareceu bastante pra me deixar pensando na vida, no universo e tudo mais. Começou no dia vinte, quando estava em casa de luto porque lembrava os trinta anos da queda do Convair 240 turbo que encerrou a vida de três integrantes do Lynyrd Skynyrd. Uma legião de fãs e uma geração inteira ficaram órfãs dos vocais poderosos de Ronnie Van Zant e das guitarras de Steve Gaines. Mas o importante aqui é que trinta anos depois, um cara com um quarto de século de vida se sentia órfão também. E isso sem nem ter conhecido aquela época. Esse vazio que me deu me fez sentir triste com a época em que vivia. Eu estava lendo uma revista que indicava cinqüentas discos imperdíveis de rock. A maioria era do final dos anos sessenta e início dos setenta. Os textos falavam de uma época mágica, e me faziam olhar pela janela e ver um vazio enorme. Um sentimento de que o que era pra ser vivido já tinha passado, e que eu estava na época errada. Não gostava de nenhuma banda da atualidade (com exceção de Black Crowes e My Morning Jacket), e as músicas que deveriam me dar alguma ideologia de vida eram de uma época em que eu nem sonhava ser um espermatozóide no saco do meu pai.

Estava sentado no meu quarto e vi meu irmão passar. Pensei no que era reservado pra ele, se eu já me sentia assim. Uma garotada que gostava desde rock até axé ou pop romântico de corno. Mas o pior foi quando ele anunciou que tinha montado uma banda com os colegas. Meus pais ficaram contentes, mas eu previ a catástrofe. Eu perguntei: “O que vocês vão tocar?”. “Rock”, ele respondeu. “Mas que bandas?” “Essas tipo NX Zero, Fresno”.

Sabe aquela sensação de ficar alguns segundos sem reação, tentando assimilar as palavras? Pois é. Meu cérebro trabalhava duro pra saber se ele tinha tido a intenção de ofender o rock, ou se foi só engano. Aí me liguei no que ele tinha dito e me vi encarando o fim do mundo: meu irmão tinha virado emo. Corri pro quarto dele e falei: “Você ta brincando, né?” “Não”, ele disse bem sério e me olhando como quem desafia um inimigo antigo. “E qual vai ser o nome da banda? Dark Emoticon? Ou quem sabe Pink Death?” Me olhou firme e disse: “Vai se ferrar”. Parecia que estava mesmo tomando Uma posição. Fiquei entregue a um sentimento de desolação, mas me resignei. Pelo menos deixei um aviso: “mas vê se não chama de rock isso que vocês vão tocar”.

Sai resmungando que ele podia então ter escolhido os indies, esses new mods que pelo menos achavam que podiam voltar aos anos sessenta usando aqueles terninhos e penteados. Mas não, tinha que ser emo.

Pra mim, meu irmão sempre era um pequeno inocente porque era meio tapado pra quem tinha dezesseis anos. Ele ia sempre ser aquele jurubeba miúdo que uma noite entrou na sala e perguntou onde os pais estavam. Respondi que tinham ido jantar, mas ele ainda quis saber por que estavam demorando. Tentando me livrar logo da conversa pra poder ver o filme em paz (provavelmente Star Wars - O Império Contra-Ataca), respondi: “Acho que foram num motel depois da janta”, “Fazer o que num motel?” “O que todo mundo faz. Sexo”. E após breves segundos de silêncio: “Por que eles ainda fazem sexo se já têm dois filhos?” Foi uma pergunta calma, mas cheia de uma curiosidade assustada. Olhei pra aquela figura magricela do meu lado, e já não havia mais nada, nem filme, nem sala, nem sofá. Apenas eu e um problema. Desisti do filme, levantei, passei a mão na cabeça dele e a única coisa que consegui responder foi: “É meu rapaz. A vida é dura”.

Essa digressão foi só pra explicar que eu ainda achava meu irmão esse ser meio tapado. Só que naquele dia percebi que ele estava tomando posição na vida. Podia ser um emo, mas pelo menos era uma atitude. Daí que à noite, quando ouvi aquela naba escutando The Strokes, fui pedir que ele no mínimo escolhesse um estilo e seguisse seu caminho. E me veio com uma de ter liberdade de gostar do que fosse. Que curtia a música pela música e não por atitude. O que me fez resmungar um: “Ideologia, pra que?”

Lembrei da gurizadinha da escola onde eu trabalhava, e pra quem eu tentava ser um tipo de guru musical. Indicava músicas e bandas legais. Mas não cansava de me desapontar. Eles só sabiam baixar CD na internet e ouvir de tudo. Nenhum deles sabia como era a emoção de comprar um CD novo, sentir o cheiro do encarte, ouvir cada faixa como se fosse a primeira vez, num volume que nenhum computador alcança. Em fim, eu não conseguia transformar aquelas coisas. Mal ouviam The Who e já tinham baixado CPM 22. Fiquei pensando que não era a toa que eles não tinham mais identidade musical.

Essas foram as duas primeiras coisas estranhas que aconteceram e me abalaram. No meio dessa depressão que me bateu, me senti frustrado comigo mesmo. Me sentia bastante desolado com o fato de olhar pras minhas mãos e não ver nada que pudesse chamar de meu. Peguei o violão e tentei dedilhar algo pra me distrair, mas não resolveu. Precisava fumar e beber. Peguei o herbby e fui pro Penelope, o bar do Dumas. Na verdade, o bar mais incrível do mundo. Lá a gente encontrava de tudo. Se estivesse procurando alguém, do Keith Richards ao Papa, você achava lá. Penelope Obscura era o nome. O Dumas dizia que era o nome de uma ave que ele tinha visto no zoológico. Por mim tudo bem. De todo jeito o nome caia bem com o ambiente: obscuro. Não sou bom em descrições, mas posso dizer que era claustrofóbico, escuro, fedia a álcool etílico e cigarro e estava sempre meio vazio (o que dado o seu tamanho era o mesmo que dizer que estava sempre meio cheio).

Sentei no balcão e pedi pro Dumas se não ia rolar um especial de Lynyrd Skynyrd. Ele me olhou com cara feia e saiu. Diva, a mulher dele, que ajudava a atender no balcão, chegou pra mim e disse que ele estava assim o dia inteiro. Não tinha conseguido fechar com nenhuma banda pra tocar LS.

O Penelope tinha um palco, e algumas bandas tocavam nele. Uma delas era a nossa, mas pra meu desespero nós não tocávamos Lynyrd. Para se tocar LS é preciso três guitarras, e três bons guitarristas. Além disso, nenhuma banda com três guitarras cabia naquele palco. Se com quatro pessoas, alguém já quase ficava no público, imagine com sete. Eu disse pra Diva só botar a rolar Lynyrd no som. Ela colocou o DVD ao vivo da turnê The Vicious Cycle no telão. Bom DVD, mas... o pobre Johnny não tinha nem de longe o poder vocal do irmão, e as guitarras sem Collins e Gaines não eram a mesma coisa. Mesmo assim fiquei ali, bebendo, fumando e querendo estar no sul dos Estados Unidos na década de setenta.

Aí estão os caras, pra você que não conhece. Da esquerda pra direita: Leon Wilkeson (baixo), Billy Powel (piano), Ronnie Van Zant (vocal), Gary Rossington (guitarra), Bob Burns (bateria), Allen Collins (guitarra), Ed King (Guitarra). Essa era a formação na gravação do clássico segundo álbum de 1974, que contém Sweet Home Alabama.

Quando voltei pra casa, passei na frente do terreno baldio. Parei e desci.
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Bom, finalmente chegamos ao terreno baldio. Mas o que ele tem de especial e a continuação dos fatos ficam para uma próxima. E se você está achando que tem muita enrolação e nenhuma história aqui, acalme-se. Estamos chegando lá. Além disso, não é fácil lembrar e organizar as coisas de um passado tão "vazio", assim, não acha? Vamos dar mais um crédito a nosso amigo e ver o que ele, afinal de contas, vai nos contar. Até a próxima.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O Terreno Baldio da Adolescência

Esse conto será dividido em partes, pois é meio longo. Como ele não foi escrito para ser assim, seriado, talvez fique meio estranho alguns dos cortes, mas vou tentar suavizar essa estranheza. Espero que gostem. Boa leitura e divirtam-se.
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“Who am I?” – Perguntou o sábio Peter Parker em Homem-Aranha 1.

A mesma pergunta que me fiz dia desses, sentado na privada de casa. Eu li meu nome escrito naquele pano no meio das canelas e pensei: vinte e cinco anos e minha mãe ainda marca minhas cuecas pra não trocar com as do pai. Pior! minha mãe ainda compra minhas cuecas!

“Que merda!”, pensei. E dei a descarga.

Fiquei lembrando uma aula de Cultura e Sociedade. Um papo que rolou sobre o que é cultura: essa história de Freud, superego e identidade cultural. O negócio de que somos definidos pelo o que a sociedade nos impõe, esse tipo de coisa. Pus pra tocar a música que sempre me pareceu trilha da minha adolescência: Baba O’Riley do The Who (http://www.youtube.com/watch?v=hKUBTX9kKEo). Pra mim é um dos hinos do rock. Umas das músicas com mais energia que eu já ouvi. Porra que refrão! E que se dane aquele papo de Vietnam. Pra mim, a música é sobre a adolescência. É sobre passar pela adolescência. Nesse ano (2007), muita coisa estranha aconteceu durante e depois do mês de outubro. Daí que fiquei pensando muito: “quem sou eu? Uma mistura de Chaves e Chapolin, rock’n roll e Sessão da Tarde?”

Foi aí que resolvi escrever. Dizem que quem escreve tenta responder perguntas. Achei que podia responder a minha. Só que não sou escritor. Escrevo textos sobre rock e história do rock pra um site, mas não me considero escritor. Também não tenho pretensão de ser. Acho muito difícil. Escrever pra mim é um parto. Quem sabe se eu tivesse composto uma música? “I'll sing my song to the wide open spaces” (http://www.youtube.com/watch?v=tFaFlJpB3Qg). Talvez me expressasse melhor. Ou não. Compor é difícil. Sei tocar a música dos outros, mas não compor. O negócio é que eu não sou artista mesmo, e só escolhi escrever porque pra isso você só precisa saber a sua língua. O que eu acho que sei. Quer dizer, mais ou menos.

Mas talvez não seja só isso. Tem muita outra coisa. Por exemplo, o problema já é achar um começo. Bom, eu nasci num agosto. Estava frio, e minha mãe preferiu parto normal. Se bem que isso não quer dizer nada. A não ser pelo fato de que o cara que nasce em agosto não pode esperar muita coisa da vida. Mas acho que meu nascimento não interessa. Não vou voltar tanto assim.

Nossa infância foi normal. A gente era uma turma legal da escola e do bairro. Começamos a curtir o bom e velho rock’n roll clássico e fizemos uma banda logo cedo. Quem trouxe isso pra nós foi o Dumas. Ele era O Cara! Primeiro foi dono de uma garagem com vários vídeos-games onde a gente jogava pagando por hora, além de se reunir pra ouvir rock e falar de rock. Depois foi dono do bar mais incrível do mundo. Nós tínhamos também a escola, o futebol na rua, os filmes e revistas proibidas e muita fita K7 gravada. Ah! por falar nisso tudo, nós tínhamos, é claro, o terreno baldio. Ele ficava na esquina da rua onde eu moro e foi onde muita coisa aconteceu. Pra ele eu posso dizer: “ah se esse terreno falasse”, sem medo do meu herby ficar com ciúmes. Esse terreno viu todo nosso crescimento humano e musical, e até um pouco do sexual. E passamos nossos anos de colégio assim: músicos, desocupados e despreocupados que só se interessavam por música, vídeo-game, cinema, futebol e mulher. Ninguém pensava no futuro.

O futuro só apareceu quando já era presente (esse sem vergonha). Foi quando acabou o terceiro ano, e todo mundo teve que cair na real da faculdade. O que fazer? Alguns foram no instinto, outros por chute. Só o Ivan foi por certeza. E o mais engraçado era que, aquele tempo todo, a gente tinha vivido de música (vivido não no sentido de se sustentar, mas de só fazer isso), mas na hora de decidir o futuro, todo mundo sabia que não seria a música. Todos menos o Firula, que achava que ia ser guitarrista solo e vender CD (“ninguém compra CD de guitarrista, a não ser guitarrista” a gente dizia pra ele). Já eu escolhi por algum tipo de gosto mesmo. Fiz aqueles testes vocacionais, e saiu que eu era comunicativo e criativo, e podia ir para a área da comunicação. Mas isso saia pra todo mundo que estava em dúvida e que não tinha uma aptidão de verdade pra alguma coisa. Daí, como eu gostava de Idade Média, foi um pulo: história. Tem mais que se fudê mesmo! Como se a coisa fosse só estudar Idade Média. Pelo menos o Diógenes também achou que Arquitetura era só ficar desenhando, e o Firula que Música era só ficar tocando. Acabou que em alguns anos só o Ivan estava formado, e o resto arrastava a faculdade sem animo e se virando como dava. Quando eu vi, nós estávamos bêbados no bar reclamando da faculdade, eu encarei o Peralta e parafraseei o Bob (só que na minha cabeça, era na versão do Jimmy, claro): “There must be some kind a way out of here”. Nós não estávamos agüentando aquela draga de vida universitária.

Mais ou menos assim a coisa estava. A banda ainda fazia uns shows por aí, principalmente no Penelope (o bar mais incrível do mundo), a gente ainda se encontrava em qualquer lugar pra ensaiar, mas ficava mesmo era jogando papo fora (“pra que época mágica do rock tu ia se tivesse um Deloren?”; “qualquer banda com Jimmy Page e mais guitarristas iria fracassar, a não ser o Black Crowes, mas só porque os caras queriam ser o Led”; “Chaves é melhor que Chapolin”; “Duane Allman é melhor que qualquer guitarrista americano, menos o Hendrix”; “Lynyrd Skynyrd é mais importante que The Allman Brothers”; “não gostar de Southern Rock atual não é birra é respeito às origens”; “rock brasileiro é só o Rauzito”; “mulher só é problemática porque em vez de ouvir rock, beber uísque e fumar elas preferem ouvir Madona, Beyoncé e ir no shopping”; “Miss You é boa música pra transar, mas chapado é melhor com Since I’ve been loving you”, “fujam-no! Ele está agarrando!”); além de beber e se xingar.

Tá. Mas agora até eu me perdi. Isso não foi um começo. Só um baita de um remember. Que tal tentar começar apresentando?
Esses eram, mais ou menos, nós, nos primeiros anos de faculdade. Os mesmo quatro da escola (Diógenes, Firula, Petranha e eu) mais o Peralta, um segundo guitarrista que o Diógenes conhecia.

Ok, ok. Isso ainda não é bem um começo também. Mas já pensei em algo. Seria legal começar por uma música. Uma que marcou. Já falei em Baba O’Riley, mas talvez tenha outra. Você conhece esse riff?

Na escola começamos como uma banda punk porque era mais fácil, mas já curtíamos rock. Conforme fomos nos aprimorando, passamos a arriscar mais. Nos tornamos basicamente uma banda cover de Creedance, mas só porque o baterista não era lá dos melhores (nesse caso, eu). Mas conforme o show rolava, até um Led e Stones era arriscado. E um AC/DC, claro, o que também não exigia muito.

Ok, mas essa também não é ainda a música definitiva. Talvez seja essa, então:
Tá certo. Essa é legal, mas quer saber? Ainda não é a música definitiva pra essa história. E também já nem sei se é bem uma história. Se fosse, teria que ter um começo, meio e fim. Mas já gastei algumas páginas e ainda não consegui achar um começo. E também to achando que uma música só não dá. Quem sabe passo logo pra uma lista? Posso fazer a lista que servirá de trilha sonora pra história. Isso. Boa. Vamos lá...

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A lista e a segunda parte da história, que nem mesmo teve um início decente ainda, virão no próximo post. Aguarde. Abraços.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Sepultura Aberta

No mundo são mais de sete bilhões de pessoas. No Brasil são mais de cento e noventa milhões. Em Porto Alegre são mais de um milhão e quatrocentas pessoas. Na região metropolitana de Porto Alegre, são mais de quatro milhões. Um dos transportes mais usados é o metrô: quase cinquenta milhões em um ano, sendo mais de duzentos mil usuários por dia. Agora vem a parte mais interessante, Porto Alegre é a capital brasileira com o maior índice de suicídios, são mais de sete para cada grupo de cem habitantes, só na população entre quinze e vinte e quatro anos. A taxa é mais alta que em países como Holanda e Inglaterra. Junte-se a isso o fato das pessoas usarem muito o Trensurb e você tem o fato dito “interessante”: se jogar na frente do trem é um dos métodos preferidos dos suicidas da região metropolitana. Dizem que em Canoas o índice é alto. Não sei exatamente quanto, porque essas coisas não são divulgadas, mas o fato é que acontece. É claro que isso não é interessante no sentido positivo, mas para Nestor – mais um desses mais de duzentos usuários diários – era algo a se refletir, pois pensamentos de morte sempre o acompanharam, e estavam cada vez mais frequentes.

Nestor havia chegado aos cinquenta e três anos e tinha certeza de que iria morrer. É claro que todos nós temos certeza disso, mas no caso dele era a certeza de uma proximidade inevitável que não saia de perto dos pensamentos regulares. As pessoas normais às vezes se distraem e esquecem esse fato inexorável de nossa existência, mas Nestor não. Para ele, era uma certeza pesada e concreta, encravada no fundo dos seus estertores rouquenhos.

Nestor não sentia com o coração; sentia com os pulmões. Começara a fumar aos doze anos e o cigarro passou a ser, não só seu único companheiro, como também sua baliza moral e sentimental. Sentia com os pulmões, e o cigarro sempre fora sua única companhia íntima, que rolava por entre seus dedos e tocava sua boca, entrava por seu corpo e alojava-se no pulmão como o sentimento de amor se aloja no coração.

Quando chegou aos cinquenta e sete, de tanta certeza de sua morte, já havia pagado sua sepultura. Um belo buraco na parte oeste do cemitério municipal. Sempre fora homem tradicional: queria cemitério e túmulo; nada de cremação. Todos os familiares, por mais safados que tenham sido, estavam enterrados no cemitério da cidade. E era lá que ele iria se juntar aqueles sem vergonhas (que eram, afinal de contas, sangue do seu sangue), depois da morte, pois, em vida, renegara peremptoriamente a todos.

A certeza de que sua morte era eminente continuava, mas dois anos depois de ter comprado a sepultura, ele ainda vivia. Isso o incomodava: “porra! Já paguei meu túmulo e cada você?”, pensava. Estava perto da aposentadoria e ainda nada de morrer. Sempre achou que nem viveria a vida de aposentado, mas agora que estava mais perto, isso não o alegrava. Ao contrário, achava que já estava na hora mesmo de ir. Não iria aguentar a vida de aposentado. Todo dia, ao voltar do trabalho, sentado no banco do velho trem, suas ideias sacolejavam, mas o pensamento de morte continuava firme. Olhava aquele monte de gente: pessoas sofridas e cansadas; imaginava o quão cheio estava o mundo, e como ele, um qualquer sem nenhuma utilidade maior, deveria dar lugar a outros, aos mais novos, que poderiam fazer algo de útil para o mundo.

O suicídio passou a ser algo certo. Afinal, se a morte não vinha de uma vez, e ele continuava a sentir aquela intermitente certeza, por que ele mesmo não tomar uma atitude? Lembrou-se de uma conversa que teve com um maquinista do Trensurb, certa ocasião, quando estava num bar. O homem bebia e tremia sem nem conseguir juntar palavras numa frase completa. Havia passado pela experiência mais chocante que alguém no seu trabalho podia passar: “filho da mãe... suicida filho de uma bela puta!”, dizia. Depois que se acalmou, começou a choramingar sua angústia e a do suicida: “deve ser um desespero sem fim... Mas tinha que ser comigo? é uma cena que não sai mais da cabeça, mesmo depois de anos”. Nestor então descobriu que o fato havia ocorrido há cinco anos, e o homem ainda não havia se recuperado. Disfarçava muito bem para não perder seu emprego, é verdade, mas nunca esquecera. “Todo dia, ao sair da estação Mercado, eu começo a cantarolar e pensar em outras coisas. Mas sempre que chego na Niterói, a mesma imagem surge na minha frente. Tenho que me controlar pra não frear de repente e matar meio mundo de susto”. A expressão que se cravava naquele rosto mordido pela lembrança era de assustar até mesmo um coveiro, mas Nestor parecia não se importar, e, na verdade, queria saber mais. O homem, no entanto, não sabia explicar direito; tudo era um misto de angústia, medo, excitação e vontade de fugir. Ele dizia que nem sabia como ainda conseguia trabalhar. Nestor perguntou sobre o suicida, e o homem olhou-o com cara feia, mas, por fim, explicou que não perguntou muito. Sabia apenas que era um jovem de vinte e dois anos, família rica, quase formado, músico de talento.

Depois dessa conversa, começou a desistir do suicídio. Não fazia mais lógica: um rapaz com tudo na vida tirar sua própria vida? Então o suicido não era solução para pessoas como ele, Nestor, que não tinha nada. Parece que a lógica era que pessoas como ele continuassem a viver, arrastando suas vidas miseráveis e solitárias sem sentido algum.

Outra coisa que mudou depois daquele encontro foram as viagens de trem. Agora não esperava na estação tão descuidadamente como antes. Passava a olhar cuidadosamente na expectativa de ver algum provável suicida. Será que veria um? Será que saberia captar no rosto a expressão de angústia, de desespero que eles devem ter? Talvez não fosse isso que sentissem na hora. Durante suas pesquisas sobre suicidas, leu em algum lugar que muitos não demonstravam nada, nenhum tipo de problema antes de se matarem, muitos, inclusive, pareciam estar alegres. Tentou procurar por alguém com alguma alegria estranha, alguém sozinho e que estivesse rindo. Achou alguns, mas nenhum parecia ser um suicida. Talvez estivesse na estação errada; começou a descer na Niterói.

Toda essa obstinação vinha da decisão que tomara: se sua sepultura já estava pronta, e ele parecia distante de preenchê-la, iria preencher com alguém outro. Mas também não queria virar um assassino, então queria aproveitar um suicida em potencial e apenas dar um empurrãozinho.

Com essa ideia na cabeça, Nestor foi, ordinariamente, pegar o trem. No final do expediente ele voltaria a perambular por estações em busca de suicidas. Naquele dia, a temperatura estava entre seis e quatorze graus, o tempo estava nublado, a direção do vento era sul sudeste, a pressão estava em 1029 hPa, a intensidade do vento era de onze quilômetros por hora e a umidade estava em setenta e sete por cento. Ou seja, estava um típico dia de inverno, em julho de dois mil e dez. Nestor estava em um dos vagões do meio, voltando do seu trabalho e pronto para descer em alguma estação onde pensava poder encontrar algum suicida. Porém, antes disso, ele foi preso pela visão de uma mulher.

Era uma senhora gordinha, usando óculos. Tinha cabelos curtos e lisos, presos para trás por um diadema grande demais para sua cabeça. Ela sentou-se num dos bancos menores e colocou uma sacola amarela no meio das pernas, de onde tirou um par de havaianas. Tirou os sapatos e meias dos pés, calçou as havaianas e guardou os sapatos e meias na mesma sacola. Depois de alguns segundos, ainda se ajeitando no banco, pegou uma revista do colo, e usou-a para tirar uma moeda que estava presa entre o banco e a parede do vagão. Guardou a moeda em um dos bolsos, deixou a revista no seu colo e voltou sua atenção a uma bolsa preta que estava no colo, sobre a revista. Tirou dessa bolsa um pequeno livro com o título Livro da Sorte. Era muito velho. Ela o girou na mão até escolher um dos lados para abrir numa página qualquer e ler. Guardou o livro na bolsa, tirou os óculos, guardou-os na bolsa preta, deu um longo e tranquilo bocejo, deu uma rápida e imperceptível olhada para Nestor, encostou a cabeça na janela e começou a cochilar, alheia a todo resto que estava a sua volta.

Nestor viu-se preso a ela, sem nem saber por quê. Queria, agora, descobrir até onde ela ia. Parecia que a sua tranquilidade deixava-o tranquilo também. Ela era uma mulher simples, tão simples quanto ele, e parecia só, tão só quanto ele, mas, mesmo assim, parecia tranquila a ponto de dormir no trem. Não sabia bem como tinha tanta certeza de que era só: era como se algo nela fosse igual em si, mas ainda assim diferente. Como isso passava por sua cabeça? Não tinha a menor ideia.

Ele ficou tão distraído nesses pensamentos e em outros que vieram depois, que se esqueceu de descer onde normalmente descia. Mas quando viu a mulher se preparando para sair, pulou de seu lugar e ficou pronto para segui-la. Ela desceu ainda em Canoas e Nestor desceu na porta ao lado, ficando logo atrás dela. Tão atraído estava por saber mais daquela mulher, que também não percebeu que ela subitamente ficou interessada em um jovem parado mais adiante na plataforma, na frente do trem, olhando não para este, mas para os trilhos. O trem partiu e o jovem não entrou, apesar de também não ter descido dele. A mulher pareceu diminuir o passo e observar bem o rapaz, quase lhe tocando o braço. No entanto, ele não se apercebeu dela, bem como Nestor não se apercebera do jovem.

A senhora parou diante da escada rolante e hesitou por alguns segundos. Olhou de soslaio para o jovem, que continuava na exata posição onde estivera até agora, e, em seguida, para o grande e redondo relógio da estação. Moveu-se finalmente, mas não foi em direção à escada; ficou a alguns poucos passos de distância do jovem. Este continuava absorto na sua atividade de olhar os trilhos com olhos vidrados, e, assim, não percebeu a aproximação da senhora. Nestor, absorto em observar aquela mulher que estranhamente lhe interessava, não notava nada de diferente e estranho no rapaz; para ele, diferente e estranho era o interesse dela pelo jovem.

Alguns minutos se passaram nessa corrente de olhares: o jovem fitava os trilhos, a mulher fitava o jovem, Nestor fitava a mulher e ninguém os fitava. Até que o trem foi avistado por todos, vindo lá adiante. Começou, então, a movimentação: o jovem finalmente desistiu de fitar os trilhos e ficou tenso subitamente, como se um corrente elétrica tivesse perpassado seu corpo. A mulher pareceu se assustar com isso. O jovem começou a andar na direção em que o trem vinha e parou pelo meio da estação, muito próximo a borda. A mulher foi atrás dele, e, só então, como numa epifania secreta e religiosa, Nestor percebeu o que estava acontecendo e apressou-se em ir atrás dos dois. Justamente quando o trem entrava na estação, e o jovem fazia menção de dar um passo à frente, a mulher segurou-lhe pelo braço, com um toque sensível e delicado, falando com voz baixa e suave: ... Tão baixa e suave que Nestor não conseguiu ouvir.

O jovem pareceu não se assustar ao simples toque daquela mão e olhou a senhora ao seu lado com um olhar incrivelmente assustado. Nestor esperava ver um olhar decidido e raivoso, um olhar que dissesse como ele estava irritado com a pessoa que o impedira de fazer aquilo que demorara horas, talvez, dias, quem sabe meses e anos para ter coragem de fazer. Mas ali estava um olhar curioso: assustado, ingênuo e, ainda assim, como o de uma criança que espera ser encontrada fazendo sua travessura.
O jovem, então, recuou e saiu andando sem nem falar uma palavra sequer. No mesmo instante o trem vinha parando na estação e seu barulho impediu que Nestor ouvisse, novamente, as palavras que a mulher murmurava enquanto balançava a cabeça negativamente e andava em direção à escada rolante. Quando ela passou por Nestor, ele apenas ouviu a palavra: “coragem”.

Nestor deixou que a mulher passasse por ele e acompanhou-a por alguns passos até que ela se fosse. Parado bem ao lado da cabine, ele pode ver, antes que o trem saísse, o maquinista com quem conversara há alguns dias no bar. O homem obviamente não o reconheceu, mas Nestor não podia esquecer aqueles olhos marcados pela incompletude, como se faltasse um pedaço de vida. Assim que o trem tomou velocidade para deixar por completo a estação, Nestor sentou-se num dos bancos e ficou a olhar para os trilhos como quem examina um presente muito valioso para dar a pessoa que mais ama na vida. Por sua cabeça voavam e se chocavam milhões de pensamentos confusos que não se acumulavam em nenhuma vaga ideia sequer. Apenas a imagem da sua sepultura ainda aberta, esperando e esperando por anos a fio, permanecia na sua mente, como a coisa mais forte que ele podia pensar. E ali, onde milhares de pessoas passavam por dia e algumas delas decidiam morrer, Nestor acendeu mais um de seus cigarros e fumou como nunca antes.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Fábula

“je est um autre”
(Rimbaud)

Era uma vez um navio chamado Syuzhet que foi deixado num porto de um rio de uma cidade. E junto com o navio Syuzhet ficou um marinheiro esquecido para cuidar do navio até que viessem buscá-lo. Mas nunca vieram, e o navio Syuzhet foi deixado lá para ir envelhecendo e afundando aos poucos.

Quando o navio Syuzhet envelheceu e afundou o primeiro pouco, o marinheiro esquecido decidiu que não podia ficar sem fazer nada. Ele começou a arrumar e limpar o navio e suas roupas. Arrumava e limpava, arrumava e limpava. Eram poucas roupas estendidas pelo convés, mas muitas caixas e máquinas para arrumar.

Quando o navio Syuzhet envelheceu e afundou o segundo pouco, o marinheiro esquecido viu que não tinha mais o que comer. Ele pediu ajuda para o funcionário de tronco largo e olhar parvo que de vez em quando vinha observá-lo. Houve dificuldade de linguagem, mas o marinheiro esquecido conseguiu gesticular “comida”, e por sorte o parvo tinha bom coração.

Quando o navio Syuzhet envelheceu e afundou o terceiro pouco, o marinheiro esquecido sentiu-se sozinho. Ele e o parvo já nem se viam direito. Ele encontrou um gato que tinha por ali e fez amizade. Os dois juntos viviam caçando os muitos ratos que habitavam o navio. Caçavam de noite e de dia ficavam estirados sob o sol no convés, dormitando. Ficavam cada vez mais amigos, conforme os anos passavam e o marinheiro esquecido já era ágil como o gato, correndo nas quatro patas pelos corredores, e mesmo aprendeu o “miau” para se comunicar com o amigo. Mas, um certo dia, o gato já velho morreu, e o marinheiro esquecido ficou só novamente. Tentou erguer-se em duas pernas e acabou raspando o braço em uma porta enferrujada. A dor o fez gritar e se ver humano novamente. Mas não conseguia mais achar palavras pra pensar. Forçou, forçou e finalmente lembrou algo: “Spasskaia”. Mas o que era?

Quando o navio Syuzhat envelheceu e afundou o quarto pouco, o marinheiro esquecido viu como ele estava sujo e bagunçado. Ele olhou para o guindaste que havia lá pro outro lado e achou bonita a força dos seus movimentos. Inspirou-se no seu novo amigo e, com força, voltou a arrumar e limpar o navio. Arrumava e limpava junto com o guindaste, quando o serviço do amigo acabava, o dele também. E, às vezes, à noite ia sentar aos pés do amigo pra tentar lhe contar histórias, mas não sabia mais como. Não sabia se contava “balinas” ou “stavinas”. Mas, um dia, acordou e o seu amigo havia sido trocado por outro guindaste mais novo. Ele ficou triste e tentou pensar que também estava velho, mas que ninguém vinha lhe trocar. Tentou, mas não conseguiu. O marinheiro esquecido apenas caminhou pelo convés e corredores vazios. Soava um profundo som catacúmbico como os passos de um morto que anda por sua eterna morada.

Quando o navio Syuzhet envelheceu e afundou seu quinto pouco, o marinheiro esquecido se viu no espelho e se assustou. Era um ser monstruoso, misto de homem, animal e máquina. Ele decidiu que tinha de reencontrar o velho parvo de bom coração, pois ele fora o único a ficar. Ele tentou se arrumar, mas não conseguiu. Foi esperar o amigo no lugar onde ele sempre deixava as sacolas. Quando o parvo chegou e viu o marinheiro esquecido, assustou-se. O marinheiro tentou andar em sua direção e falar algo, mas o outro se assustou mais ainda e fugiu.

O marinheiro esquecido ficou parado, meio curvado, o vento a balançar seus trapos. E dos seus olhos, que há anos lacrimejava, saiu uma única e última lágrima que continha uma miríade de sentimentos resumidos num só: a dor do vazio. Ele voltou no seu caminho a passos lentos e incertos, sem certeza do que fazia, pois andar já não significava o mesmo de antes: ir de um lugar a outro, mas significava morrer a cada passo, ir em direção única e sem volta.

O marinheiro esquecido se aproximou do velho... não lembrava mais. Tocou-lhe como alguém que toca um velho companheiro esquecido que finalmente é recordado, e tirou a pequena concha canhota grudada ao casco para guardar no bolso.

Quando o navio Syuzhet envelheceu e afundou o sexto pouco, o marinheiro esquecido deitou na cama do seu dormitório e tentou lembrar algo, mas não conseguiu. Nem uma palavra veio. Ele ficou ali deitado a esperar.

Quando o navio Syuzhet envelheceu e afundou o sétimo pouco, o marinheiro esquecido já havia morrido, e afundou junto com o navio.