Foi a Solange quem me ergueu, toda preocupada, e eu ainda estava meio grogue e só sabia dizer que estava tudo bem, e que foi só um susto. Só que só um susto porra nenhuma! Foi um baita susto, porque aquele choque e a queda podiam ter me matado, mas mesmo assim eu não queria parecer fraco na frente dela e já queria levantar e subir de novo pra ver o que tinha de errado. Então a Solange me segurou e me mandou ficar sentado e disse que ia buscar água, e eu fiquei ali, tentando entender o que tinha acontecido, e sentia o corpo tremer todinho e um troço estranho na cachola. Eu nem mesmo conseguia entender o que aconteceu porque na hora estava olhando pra Solange, e não sabia se tinha um maldito fio desencapado ou o que, mas sabia que eu estava sem luva, e isso era errado, e eu nunca tinha errado assim em tanto anos.
Foi só pensar nisso que eu fiquei preocupado com essa das luvas e tentei pensar porque tinha esquecido delas. Então eu olhei o papai-noel ali parado, e não sei se era por causa do susto e da cabeça meio tonta e aquela meia luz que deixava umas sombras, mas o boneco me olhava com aquele sorriso psicopata, e eu fiquei com medo porque parecia que ele estava me provocando e dizendo que a vingança estava feita. Então eu me lembrei das imagens de quando era pequeno, das figuras do Deus de barba e roupão branco e fiquei até meio sem saber o que sentir: era meio que uma mistura de medo e de raiva, não sei, algo assim... estranho.
E eu tentei levantar e sair dali, mas ainda estava meio tonto; então sorte que a Solange chegou e me segurou, porque me impediu de cair e arrancar o pingüim que me apoiava. Então ela me deu a água, disse que já tinha ligado pra Samu e avisado o Silva pra vir ver o negócio. E eu ainda tentei dizer que eu era o responsável e eu tinha que resolver, mas a mulher mostrou porque era segurança e me levou dali na força.
Nós fomos pro HPS, e o médico fez uns exames e me mandou ficar ali a noite toda. Então a Solange veio me ver e pedir se tinha que avisar alguém, mas minha única família era minha irmã, e pra ela não precisava avisar.
Então eu não queria ficar ali de jeito nenhum porque estava mesmo preocupado com o que tinha acontecido e quando fico assim, o único lugar que me deixa tranqüilo é em casa, e eu ficava repetindo que aquilo nunca tinha acontecido e tal.
- Eu sou um bom eletricista – eu dizia – não to nessa empresa por acaso. Agora não sei o que aconteceu pra eu ter errado assim.
Ela tratou de me acalmar e disse que ia pedir pro Silva me dar uns dias de folga, mas eu disse que não queria, porque não gostava de ficar sem fazer nada, então a Solange não queria ficar discutindo e disse que tinha que ir embora, mas ia passar lá em casa amanhã depois do trabalho pra ver como eu estava. Eu nem consegui dormir direito de noite, e não sei se era a cama de hospital ou se era aquela coisa estranha dentro de mim que não me deixava sossegado, mas eu tive até uns sonhos estranhos.
No outro dia, o médico me disse que eu podia ir embora porque não tinha nada de errado comigo, e eu fui pra casa e passei o dia sem saber direito o que fazer. A Solange foi lá de noite e continuou insistindo na folga e disse que não adiantava eu dizer não porque o Silva já tinha decidido.
Então, depois de um tempo, ela olhou bem a minha casinha e perguntou com quem eu ia passar o natal, e eu não sabia o que responder, porque desde que meu pai sumiu com outra, e minha mãe morreu, eu ia pra casa da minha irmã nessas festas, mas a família do meu cunhado era tão mala, que eu já não aguentava mais. Então eu demorei pra responder, e ela acabou me convidando pra ir na casa dela, e foi assim que eu pareci acordar de verdade daquilo tudo, olhei pra ela e me dei conta que a mulher que eu gostava estava ali na minha casa, dando a maior atenção pra mim, mais ainda, ela tinha acabado de me convidar pra passar o natal com ela. Então eu perguntei:
- No duro?
- Sim. A gente faz uma janta bem farta até. Daí fica lá no jardim ouvindo um som, conversando, uns até se animam a dançar. Só que antes disso a gente sempre vai na missa. Se quiser pode chegar depois.
- Tá. Vou sim – eu disse apressado, com medo de ela desistir.
- Combinado.
Ela me sorriu e saiu, e eu fiquei ali meio pateta, olhando a porta, sem saber direito o que pensar. Então eu voltei a ficar estranho, e me larguei na poltrona e fiquei olhando o teto, pensando naquele sentimento doido que bateu depois da queda, o jeito como o papai-noel me olhou só podia ser coisa da minha cabeça, mas esse sentimento que veio junto... não sei. Era tipo medo, mas um medo diferente, medonho, não sei, um medo sem explicação, medo do escuro misturado com o medo da queda.
Então acho que senti medo da morte pela primeira vez, e junto veio uma raiva, não sei do que, raiva de tudo e todos, como se aquilo tudo só pudesse ser culpa de alguma outra coisa, mas não minha.
Eu fui dormir e ainda estava meio pendurado nesse sentimento, e acabei sonhando com queda, sabe aquele sonho que a gente tem de que tá caindo num escuro sem fim? Pois é, eu fiquei sonhando isso o tempo todo, e esse maldito sonho continuou por mais umas noites, e ele só mudava de lugar, às vezes eu caía da escada, às vezes de um morro, às vezes do andar de cima do shopping.
Passei os dois dias até a véspera do natal sem sabe o que fazer, porque o Silva não arredou pé e me deu a licença. Então que eu vi que minha vida sem o trabalho não tinha muita outra coisa, porque eu tinha minhas diversões, mas já fazia tempo que eu gostava era do sossego da minha casa, mas muito tempo de sossego me fazia mal. É aquela história: eu nasci pra ser quero-quero, porque construir o ninho e não fazer mais nada não era pra mim, e eu precisava continuar trabalhando, ou isso, ou eu precisava arrumar alguém com quem dividir esse tempo livre. Então eu lembrei de novo da Solange, e isso tudo se misturou com o sentimento estranho que eu estava tendo, e eu resolvi comprar um presente pra ela.
Então fazia tempo que eu não saia comprar presente de natal, e o centro naqueles dias estava o inferno, era gente saindo pelo ladrão, eu mal conseguia andar na rua, e entrar em loja nem pensar. Olhar vitrine era burrice, que só se via era cabeças, costas e bundas dos outros, tudo amontoado que nem urubu em carniça. E eu não acreditei foi quando me vi dentro de um shopping pra comprar um presente, mas não tinha jeito. Fui direto numa loja de chocolates. Eu não sabia o que dar, mas achei que chocolate toda mulher gosta, mas então me dei conta do calor, se fosse dar bombons, era melhor dar dentro de uma caixa com gelo. Então eu saí e fui olhar roupas, mas não sabia o tamanho e o gosto da Solange, porque quase não a vejo sem o uniforme. Então eu passei na loja de bijuteria, mas isso é presente pra homem que conhece bem a mulher, e eu tinha que ir mais calmo porque estava recém começando a conquista. Então eu zanzei tanto no meio da confusão, que acabei comprando uma garrafa de champanhe, e nem me dei conta da merda: era presentinho bem safado aquele, porque se não é pra aquelas pessoas que gostam e que sabem do assunto, é só pra deixar guardado na cristaleira como se fosse um troféu, até que num ano novo, de porre, ela abre aquele negócio porque não tem mais nada pra beber; ainda mais quando é essas espumantes vagabundas como a que eu comprei. Mas pelo menos foi de coração.
Ainda que gastei um dia nessa função, também fiquei meio irritado, porque enquanto eu tentava voltar pra casa fiquei com vontade de mandar todo mundo à merda com aquela mania de compras, porque mesmo de moto eu estava trancado no transito, querendo matar um, e pensando que merda eu fui fazer. E então eu ouvi meio longe, por cima das buzinas, um som bonito, umas vozes como que de anjos estavam cantando em algum lugar, e elas pareciam vir da direção da catedral, e eu fiquei com vontade de ir até lá porque parecia um negócio que acalmava: o que eu estava precisando.
Consegui sair dali fazendo umas manobras ilegais e peguei uma rua que levava pra catedral, e vi que era alguma programação natalina: um coro muito bonito cantava uma dessas músicas que a gente gosta mesmo sem saber o que diz, porque a letra é em alemão. Então tinha bastante gente olhando, e eu fiquei mais afastado, ouvindo e me acalmando, e era mesmo muito bonito, e eu achei que aquilo sim era espírito natalino.
Então não sei quantas horas fiquei por ali porque perdi a noção de tempo, e na verdade, tinha perdido a noção de tempo e espaço porque estava tão embalado pela melodia que pensei ter flutuado por um instante. Não sei, mas sabe aquela coisa bem de leve, como se a nossa alma tivesse dado um tempo, ido ali e já voltado? Eu acho que eram as cores das luzes na fachada bonita da catedral e as vozes e a figura bonita que o coro fazia e os movimentos do regente, e tudo isso meio que se juntou com aqueles dias estranhos, e eu acho que tudo ajudou pra que eu tivesse a sensação de flutuar mesmo. Não sou pessoa das mais cultas, mas também sei apreciar as coisas bonitas, e aquilo era bonito, ainda mais quando a gente está assim como eu estava, meio tristonho, meio perdido, meio medroso, meio sem saber direito o que a vida ta fazendo com a gente.
No meio daquilo tudo, mesmo a cretinice do natal pareceu sumir, e eu pensei que ali, naquelas vozes e melodias podia haver um Deus, não sei, mas talvez eu tenha achado uma forma de aceitar Aquela existência, se visse que Ele estava mesmo fazendo alguma coisa por mim, como aquele coral estava. Então eu só fui acordado com a explosão dos fogos que acabavam a programação, e eu estava tão envolvido na atmosfera de paz que nem a barulheira me irritou, e achei até bonito o colorido dos fogos sobre a praça.
Eu voltei pra casa e fiquei pensando em muitas coisas, coisas profundas que a gente não se acostuma a pensar, porque parece ser coisa dos que nascem pra isso, os padres e os filósofos e os professores. Então eu pensei na vida, na morte, no tempo, e achei que talvez o medo que eu sentia fosse de alguém que se esqueceu de aproveitar um pouco mais as pessoas, mesmo elas sendo estranhas, porque ainda tinha as legais. Então, talvez eu tivesse envelhecido um pouco naquele natal, e lembrei de muita coisa que aprendia com minhas tias carolas, mas o que era mais forte era a vontade de acreditar em algo a mais. Então, eu, sozinho ali na minha casa, ainda ouvindo o eco do coral, percebi que tinha desistido de alguma coisa... talvez eu tivesse era mesmo desistido de acreditar.
De noite sonhei de novo uma coisa muito estranha, mas não tinha mais queda. Eu andava num descampado e via um morro onde em cima tinha uma escadaria, e eu subia a escadaria, mas ela era cumprida, muito cumprida, e de repente eu chegava no final e não tinha mais pra onde ir, e tinha só o céu na minha frente, e pra trás a escadaria descia. Então eu sentia muito medo, porque estava bem na beirada e quando olhava pra trás, a escadaria era tão reta e estreita que eu tinha medo de voltar, e eu ficava ali parado, sem saber pra onde ir e morrendo de medo. Então eu ouvia as vozes do coral e, lá longe, mais adiante, podia ver o coral cantando na frente de uma igrejinha com uma torre pequena. E fiquei com vontade de ir lá, mas continuava com medo, e então eu olhei pros meus pés e vi asas. Sim, asas nos meus pés, e eu começava a perder o medo, por causa da vontade de ir até o coral. Então eu só pisei e fui e andei no céu mesmo, com as asas nos pés batendo rápidas que nem asa de colibri.
Então eu acordei com uma vontade louca de voar, mas sem saber se tinha chegado na igreja ou não. Nossa! Que sonho maluco! Eu me sentia muito estranho porque tudo aquilo se misturou, e acabou que me deu vontade de ir à missa com a Solange e a família dela. Eles eram gente simpática, querida e te recebiam muito bem.
E acabou que foi muito bom ir à igreja porque foi uma missa simpática e boa, e eu pensei que ia ser aquela coisa de descer a lenha, mas não, porque o padre era um sujeito legal e falou de amor, de esperança, de nunca desistir dos outros porque Jesus não desiste da gente, e eu achei aquilo bem a ver com o momento, e o jeito como ele falava parecia mostrar algo além, alguma coisa que não era nada do que eu tinha imaginado até hoje.
Então, no final da missa, as pessoas se cumprimentavam e desejavam feliz natal, e o clima era bem agradável, e eu estava me sentido bem e andei onde tinha muitas imagens de santos e de Jesus, mas nada daquilo dizia alguma coisa. Então acabei topando com uma bíblia esquecida em um dos bancos, e tinha nela uma folha seca de árvore marcando uma página, e aquilo me pareceu tão interessante, que fiquei meio abobado olhando, e, de repente, eu achei que ouvi como um sopro, uma voz dizendo que eu não desistisse. Então olhei pros lados e vi a imagem de um Jesus bem diferente, de sorriso simpático e olhos espertos, e eu simpatizei com ele e fiquei encarando aquela figura tão diferente de todas as outras que eu conhecia, e ele parecia alguém de verdade, alguém confiável. Então, era como se não fosse a imagem dele, mas o que ele tinha feito por mim, pra todos, e achei aquela história de ouvir Jesus tão maluca que até pareceu mais fácil de acreditar novamente.
Quando fomos pra casa da Solange, ela ficou muito feliz com o presente e disse que não precisava e que já estava bom eu estar ali, e eu fiquei achando que estava ganhando a mulher e não conseguia pensar em outra coisa, mas então ela saiu pra guardar o presente, e eu fiquei pensando no olhar dela e na sinceridade dele e achei que aquilo era muito mais do que só interesse de mulher por homem, interesse de coisas do mundo, mas era um sentimento de quem de verdade se importa com os outros. Então pareceu que eu vi nisso aquele Jesus de novo, e parecia que Ele me sussurrava mais uma vez, e o olhar dela parecia com o Dele. Então, sem nem acreditar direito, eu acho que estava acreditando de novo.
É claro que eu não voltei a ser católico de verdade depois disso tudo, mas pelo menos voltei a acreditar em algo como Deus. Na verdade queria era acreditar em Jesus, pelo menos o Jesus daquela noite, mas como pra se acreditar no Filho, precisa se acreditar no Pai, eu acho que voltei a acreditar em Deus porque eu achei que no fim das contas não tinha porque não acreditar num camarada que, mesmo com toda sacanagem que fazem com Ele no dia do seu aniversário, ainda me pede pra acreditar porque Ele acredita.
Às vezes, quando ainda conto essa história pra Solange, ela me diz que se não conhecesse o marido que tem, diria que ele era um santo. Então eu olho pra ela e digo que em santo eu não acredito, porque salafrário que faz e acontece, daí tem um piripaque qualquer, diz que é uma visão, que se converteu e sai fazendo milagre... Isso pra mim é uma baita sacanagem de quem não respeita a fé dos outros. E pra mim Deus é Deus, o Filho Dele é o Filho Dele, e o resto é tudo homem que só sabe fazer merda.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Um Conto de Natal em Duas Partes
Dedicado a Charles Dickens
Então, eu sempre pensei desse jeito: é a natureza que te diz se tu vai ser André Lima ou Renato Portalupe, tu pode até tentar fazer história, mas se tu nasceste pra ser mais um então não tem jeito, e eu vejo isso nos pássaros, como o rabo-de-palha: ele às vezes pega e faz o ninho no pinheiro, no meio dos espinhos e isso deve dar um trabalhão, mas depois que faz, ele fica tão protegido que não precisa mais se preocupar, está lá pronto, e só tem que procriar e aproveitar a vida cantando. Então eu olho o quero-quero: ele faz o ninho no meio do gramado, e é fácil e sem trabalho, mas se tu olhas depois, ele tem que passar o resto do tempo se incomodando e cuidando dos filhotes. Então tu sabes que quando ele canta não é de alegria, é de preocupação. E ninguém vai me convencer que podia ser diferente se o quero-quero quisesse; não ia ser. A natureza disse pra eles serem assim, e cada um é como tem que ser.
Era mais ou menos isso que eu pensava da vida: você tinha que jogar com as cartas que ela te dá, e as coisas são assim, e não dá pra ficar se iludindo com essas ideias de que pode fazer algo pra melhorar. Tu achas que a vida te dá alternativa (pinheiro ou grama) pra tu escolheres, mas não, porque é ela mesma que te leva pra um lado ou outro.
Por isso eu achava o natal uma merda, uma epocazinha que me deixava de mau humor, quando eu mais via que a natureza era filha da puta. E digo natureza porque já não acreditava mais em Deus. Até tinha sido criado numa família bem católica, mas eu mesmo já não era mais católico. A última vez que tinha me confessado foi quando roubei bolacha do pote de cima do armário, e foi tanta ave-maria e padre-nosso de castigo, que o padre deve ter mesmo achado que as bolachinhas eram caras. Mas o que me fez desistir foi aquela mania de me fazer acreditar naquele Deus de barba e roupão branco, ou naquele Jesus dos olhos azuis, porque isso era muito difícil de engolir. Acreditar que o mundo foi criado por esse camarada? Não sei, mas era muito chato rezar imaginando falar com aquelas figuras dos santos e aquele Deus, umas imagens que não me diziam nada, até porque me fazia lembrar o papa, e esse camarada nunca me desceu. Por isso achei que era melhor acreditar em alguma coisa do tipo “natureza”, que mandava em tudo.
Então, como eu dizia, achava que o natal era epocazinha medonha porque trabalho num shopping, e não tem lugar mais certo pra se ver como o homem é bicho desgraçado. Passar os dias no shopping era provar que Deus não existia mais. Era difícil pensar que Ele tinha criado os homens pra ficarem andando e olhando vitrine e comprando coisa. Se a vida era isso, eu achava que ou Deus não existia, ou ele estava muito errado. E tudo isso eu achava até aquele natal, quando aconteceu uma coisa que me fez pensar.
Foi no meu primeiro natal trabalhando no shopping Barra Sul, um shopping muito, mas muito grande que abriu em Porto Alegre, um troço gigante. E a empresa onde eu trabalho cuida da parte elétrica de lá, e aquele era o primeiro natal do tal Barra Sul Shopping Center, e decidiram colocar um enfeite modernoso lá no meio: tipo uma ilha num entroncamento de corredores, cheio de presentes, papais-noéis, ursos-polares e pingüins, e tinha até papai-noel que girava um bebe urso-polar (só faltava uma coca-cola na mão), e num dos lados desse negócio tinha um papai-noel que se mexia, tocava flauta, piscava e cantava com um coral de pingüins mexendo a cabeça, um troço pra lá de medonho. Eu achava aquilo o fim do natal, e não sei como as crianças não tinham medo, porque o papai-noel era assustador e mais parecia um daqueles bonecos do Brinquedo Assassino. E pra mim aquilo era mais uma prova da bobagem que a religião tinha virado. Tudo bem que não sou mais católico, mas coitado do Jesus que de estrela principal da festa sumiu e deu lugar pro velho de vermelho; o que era pior: tinha que ser de vermelho.
Então, naquele ano, já que eu era sozinho e não gostava do natal mesmo, me dei mal e fui escalado pra ser um dos responsáveis da geringonça. Digo me dei mal porque coisa sofisticada no Brasil é assim: só serve pra dá merda e ferrar com a vida da gente. Só faltou eu morar no shopping naqueles dias, porque quando tudo fechava de noite, lá ia o Jerônimo fazer a manutenção, e abre papai-noel, e tira a cabeça de pingüim, e enfia chave de fenda na traseira do urso-polar. Sentia-me o Zé do Caixão fazendo um filme de terror, mas ainda tudo bem, isso não era nada, porque era minha função fazer manutenção de outras partes do shopping, e até era legal, porque eu podia ficar mais tempo perto da Solange. Pior era quando aquele festival de bizarrice eletrônica teimava de estragar bem no meio do expediente, porque aí lá ia o Jerônimo com sua escada e caixa de ferramenta, no meio do povaredo.
Um dia tive de ir quando ainda tinha uma função de gente olhando, um monte de pai com filho chorando porque o papai-noel e os pingüins não cantavam, e eu cheguei, deixei a escada no chão porque não ia precisar (só andava com ela pra fazer cena) e entrei no cercadinho. Já tinha todo mundo saído dali, e só ficou um pai com a filha pela mão:
- O que ele vai fazer papai?
- Vai cuidar do papai-noel.
- Ele vai dá remédio pra ele vai?
- Vai minha filha. Ele é o médico que cuida do papai-noel.
Eu olhei pro homem que tinha vindo com aquela história pra pobre da criança e pensei: tem coisa mais patética do que ser pai de criança nessa época do ano? Inventa cada história só pra não acabar com a magia do natal, mas enche a coitada de brinquedo e faz acreditar que essa é a idéia do natal, é uma merda. E o homem viu meu olhar de poucos amigos e ainda deu um sorrisinho safado e me pediu confirmação:
- Né que o senhor vai cuidar bem do papai-noel?
O azar dele foi que bem na hora eu já estava desrosqueando e tirando fora a cabeça do bom velhinho:
- É – eu disse, e tentava não rir porque a criança já começava a abrir o berreiro atrás de mim.
- Calma minha filha. É assim mesmo, ta vendo? É só um robô. O tio tem que fazer isso pra arrumar. Tá vendo? É só um robô. Já passou. Já passou.
A menina não queria saber de arrego e gritava:
- Mas você disse que era de verdade.
- Foi, mas não é minha filha. É só um robô, tá vendo?
Depois que a mãe veio buscar a menina, acho que o homem viu meu sorrisinho e ainda quis botar a culpa em mim.
- O senhor precisava ser tão insensível?
- Desculpe. Como?
- Tirar a cabeça do papai-noel assim, na frente da minha filha.
- Olha meu senhor, é a única maneira de arrumar.
- Mas podia ter sido mais delicado.
Então ele já estava me irritando, porque o coitado é obrigado a trabalhar no natal, tem que cuidar de uma geringonça medonha daquelas, e ainda ouvir desaforo de rico metido a besta?!
- Delicado como? Queria que eu pedisse com licença e me desculpe pro Papai Noel? Ninguém mandou inventar que isso era de verdade.
- O senhor não tem filhos não?
- Graças a Deus não.
- O senhor devia ser penalizado sabia?
- Penalizado por quê? Por que não tenho filhos? Ou por que to fazendo o meu trabalho?
Nessa hora nós dois já estávamos falando alto e algumas pessoas passavam olhando assustadas, e foi quando a Solange chegou perto.
- Algum problema, senhor?
- Esse funcionário aqui arrancou a cabeça do papai-noel na frente da minha filha, sem nenhum tipo de aviso ou vergonha.
- Mas é a única forma que ele tem de arrumar, senhor.
- É, mas ele podia ter sido mais delicado.
- Mais delicado como pelo amor de Deus?! Não fui eu que inventei esta merda. Devia era reclamar pra quem fez isso assim.
- Calma, Jerônimo. Deixa que eu resolvo – ela disse e saiu com o homem, e ele ainda me deu uma última olhada de cima a baixo, parecia querer mostrar que era mais alto, e que isso dava mais importância, mas quanto maior, maior a queda, eu pensei, e voltei pro meu bom velhinho decapitado, e ainda aproveitei e dei uma relanciada pra ver a Solange.
Ela era uma morena dos cabelos em cachos e bonita de só vê, eu ficava impressionado com a seriedade dela como segurança. Devia ser braba e forte pra burro, porque uma vez assisti dar uma chave de braço num malandro que fez ele se contorcer todo de dor. Então eu gostava do jeito que ela conseguia ser feminina até naquele uniforme, tinha pose, mas quando dava o sorrisinho, mostrava que era mulher mulher mesmo. E eu já fazia tempo que atirava minhas pedras pra ver se conseguia alguma coisa, mas parecia ser trabalho demorado aquele. E eu gostava de passar por ela com minha escada e a caixa de ferramentas porque ela sempre me olhava com mais atenção. E quando eu estava lá no alto, com meu cinturão de couro e mexendo nos fios, ela passava em baixo, eu dava uma olhadela e ela sempre sorria de volta como quem gostava de me ver trabalhando. Não sei, mas acho que lá em cima eu fazia figura bonita, parecia importante, mais perto do céu, ainda mais com meu uniforme e todos aqueles apetrechos pendurados, devia dar um ar diferente, de gente grande.
- Pega leva da próxima, Jero – ela disse quando voltou – tive que convencer o cliente a não dar queixa tua.
- Dar queixa? Mais e o que eu fiz de errado?
- Nada, mas se o cliente acha que fez, pede desculpa e continua fazendo teu trabalho.
- Mas e pedir desculpa por que se eu não fiz nada errado?
- Tá, mas sabe como é essa gente.
- E é por isso mesmo que eu não peço desculpa. Ele acha o que? Que só porque pode vir comprar presente pra filha dele no shopping é melhor do que eu? Ele não sabe que o dinheiro que ele gasta aqui, acaba pagando meu salário? Quer me ferrar? Vai compra em outro lugar.
- Minha nossa, Jero! Calma. Pra que ficar tão nervoso?
- Ah... Tem coisa que me deixa fulo.
- É o tal problema com o natal? Você acha mesmo tão ruim assim?
- O problema é essas pessoas que vêm aqui me aporrinhar por nada e depois vai lá desejar feliz natal e paz no mundo. Se todo mundo aceitasse que cada um tem sua função e seu lugar, pronto. Eu sei fazer isso aqui e faço. Ele que vá fazer sei lá o que. Ou eu por um acaso reclamei que ele é rico e ganha mais dinheiro do que eu? É só uma questão de viver e deixar o outro viver. Pronto
- Tá bom, Jero. Tá bom. Agora vai fazer teu trabalho antes que outra criança venha chorar porque o papai-noel tá sem cabeça.
- Isso que tu não viu o que eu vou fazer com os pingüins.
- Ai, ai, ai, Jero. Tu não presta mesmo – Ela disse rindo e indo embora.
Pronto, eu ganhei mais um ponto, porque mulher gosta de homem que sabe ser engraçado, até quando está irritado, e, além disso, eu tinha mostrado que era homem de verdade, que tinha sangue nas veias.
Claro que mais tarde tive que me reportar pro chefe pra explicar tudo direitinho, e ele até deu risada, e disse que esse povo era assim mesmo, mas que da próxima vez eu devia fazer como a Solange disse, porque o cliente tem sempre razão.
De noite eu fui com minha escada fazer a manutenção de sempre, e, quando passei pela Solange, recebi mais um sorriso, afinal eu era o assunto do dia no shopping. Todos os colegas dali achavam que eu tinha que ter mais cuidado, mas mesmo assim eles me apoiavam e concordavam que quem estava errado era o cara.
Eu estava me sentindo muito mais por cima do que em qualquer outro natal e fui fazer meu serviço cheio de mim. Então vem o que eu digo: na vida é assim, a natureza é que manda. Eu estava lá em cima, me achando o cara, me sentindo o grandão, a Solange passou lá em baixo, eu fui olhar pra ela, ela me deu um sorrisinho, eu dei uma piscadinha, e foi aí que aconteceu. Não sei se foi descuido meu, ou se tinha alguma coisa errada na fiação em cima do pinheiro, mas eu sei foi que levei um choque que me derrubou da escada e tomei um tombo que podia ter sido bem pior se eu não tivesse caído em cima do monte de neve, umas neves feitas de algodão e espuma que amaciaram o tombo. Eu rolei abaixo e só fui parar porque bati nos pingüins que estavam parafusados no chão. Então fiquei um tempo deitado, tempo que não me lembro de sentir nada que não fosse meu coração batendo de um jeito que parecia ser no corpo todo, e o resto era só uma sensação estranha como se tivesse dado apagão na cabeça da gente.
FIM DA PARTE I
Então, eu sempre pensei desse jeito: é a natureza que te diz se tu vai ser André Lima ou Renato Portalupe, tu pode até tentar fazer história, mas se tu nasceste pra ser mais um então não tem jeito, e eu vejo isso nos pássaros, como o rabo-de-palha: ele às vezes pega e faz o ninho no pinheiro, no meio dos espinhos e isso deve dar um trabalhão, mas depois que faz, ele fica tão protegido que não precisa mais se preocupar, está lá pronto, e só tem que procriar e aproveitar a vida cantando. Então eu olho o quero-quero: ele faz o ninho no meio do gramado, e é fácil e sem trabalho, mas se tu olhas depois, ele tem que passar o resto do tempo se incomodando e cuidando dos filhotes. Então tu sabes que quando ele canta não é de alegria, é de preocupação. E ninguém vai me convencer que podia ser diferente se o quero-quero quisesse; não ia ser. A natureza disse pra eles serem assim, e cada um é como tem que ser.
Era mais ou menos isso que eu pensava da vida: você tinha que jogar com as cartas que ela te dá, e as coisas são assim, e não dá pra ficar se iludindo com essas ideias de que pode fazer algo pra melhorar. Tu achas que a vida te dá alternativa (pinheiro ou grama) pra tu escolheres, mas não, porque é ela mesma que te leva pra um lado ou outro.
Por isso eu achava o natal uma merda, uma epocazinha que me deixava de mau humor, quando eu mais via que a natureza era filha da puta. E digo natureza porque já não acreditava mais em Deus. Até tinha sido criado numa família bem católica, mas eu mesmo já não era mais católico. A última vez que tinha me confessado foi quando roubei bolacha do pote de cima do armário, e foi tanta ave-maria e padre-nosso de castigo, que o padre deve ter mesmo achado que as bolachinhas eram caras. Mas o que me fez desistir foi aquela mania de me fazer acreditar naquele Deus de barba e roupão branco, ou naquele Jesus dos olhos azuis, porque isso era muito difícil de engolir. Acreditar que o mundo foi criado por esse camarada? Não sei, mas era muito chato rezar imaginando falar com aquelas figuras dos santos e aquele Deus, umas imagens que não me diziam nada, até porque me fazia lembrar o papa, e esse camarada nunca me desceu. Por isso achei que era melhor acreditar em alguma coisa do tipo “natureza”, que mandava em tudo.
Então, como eu dizia, achava que o natal era epocazinha medonha porque trabalho num shopping, e não tem lugar mais certo pra se ver como o homem é bicho desgraçado. Passar os dias no shopping era provar que Deus não existia mais. Era difícil pensar que Ele tinha criado os homens pra ficarem andando e olhando vitrine e comprando coisa. Se a vida era isso, eu achava que ou Deus não existia, ou ele estava muito errado. E tudo isso eu achava até aquele natal, quando aconteceu uma coisa que me fez pensar.
Foi no meu primeiro natal trabalhando no shopping Barra Sul, um shopping muito, mas muito grande que abriu em Porto Alegre, um troço gigante. E a empresa onde eu trabalho cuida da parte elétrica de lá, e aquele era o primeiro natal do tal Barra Sul Shopping Center, e decidiram colocar um enfeite modernoso lá no meio: tipo uma ilha num entroncamento de corredores, cheio de presentes, papais-noéis, ursos-polares e pingüins, e tinha até papai-noel que girava um bebe urso-polar (só faltava uma coca-cola na mão), e num dos lados desse negócio tinha um papai-noel que se mexia, tocava flauta, piscava e cantava com um coral de pingüins mexendo a cabeça, um troço pra lá de medonho. Eu achava aquilo o fim do natal, e não sei como as crianças não tinham medo, porque o papai-noel era assustador e mais parecia um daqueles bonecos do Brinquedo Assassino. E pra mim aquilo era mais uma prova da bobagem que a religião tinha virado. Tudo bem que não sou mais católico, mas coitado do Jesus que de estrela principal da festa sumiu e deu lugar pro velho de vermelho; o que era pior: tinha que ser de vermelho.
Então, naquele ano, já que eu era sozinho e não gostava do natal mesmo, me dei mal e fui escalado pra ser um dos responsáveis da geringonça. Digo me dei mal porque coisa sofisticada no Brasil é assim: só serve pra dá merda e ferrar com a vida da gente. Só faltou eu morar no shopping naqueles dias, porque quando tudo fechava de noite, lá ia o Jerônimo fazer a manutenção, e abre papai-noel, e tira a cabeça de pingüim, e enfia chave de fenda na traseira do urso-polar. Sentia-me o Zé do Caixão fazendo um filme de terror, mas ainda tudo bem, isso não era nada, porque era minha função fazer manutenção de outras partes do shopping, e até era legal, porque eu podia ficar mais tempo perto da Solange. Pior era quando aquele festival de bizarrice eletrônica teimava de estragar bem no meio do expediente, porque aí lá ia o Jerônimo com sua escada e caixa de ferramenta, no meio do povaredo.
Um dia tive de ir quando ainda tinha uma função de gente olhando, um monte de pai com filho chorando porque o papai-noel e os pingüins não cantavam, e eu cheguei, deixei a escada no chão porque não ia precisar (só andava com ela pra fazer cena) e entrei no cercadinho. Já tinha todo mundo saído dali, e só ficou um pai com a filha pela mão:
- O que ele vai fazer papai?
- Vai cuidar do papai-noel.
- Ele vai dá remédio pra ele vai?
- Vai minha filha. Ele é o médico que cuida do papai-noel.
Eu olhei pro homem que tinha vindo com aquela história pra pobre da criança e pensei: tem coisa mais patética do que ser pai de criança nessa época do ano? Inventa cada história só pra não acabar com a magia do natal, mas enche a coitada de brinquedo e faz acreditar que essa é a idéia do natal, é uma merda. E o homem viu meu olhar de poucos amigos e ainda deu um sorrisinho safado e me pediu confirmação:
- Né que o senhor vai cuidar bem do papai-noel?
O azar dele foi que bem na hora eu já estava desrosqueando e tirando fora a cabeça do bom velhinho:
- É – eu disse, e tentava não rir porque a criança já começava a abrir o berreiro atrás de mim.
- Calma minha filha. É assim mesmo, ta vendo? É só um robô. O tio tem que fazer isso pra arrumar. Tá vendo? É só um robô. Já passou. Já passou.
A menina não queria saber de arrego e gritava:
- Mas você disse que era de verdade.
- Foi, mas não é minha filha. É só um robô, tá vendo?
Depois que a mãe veio buscar a menina, acho que o homem viu meu sorrisinho e ainda quis botar a culpa em mim.
- O senhor precisava ser tão insensível?
- Desculpe. Como?
- Tirar a cabeça do papai-noel assim, na frente da minha filha.
- Olha meu senhor, é a única maneira de arrumar.
- Mas podia ter sido mais delicado.
Então ele já estava me irritando, porque o coitado é obrigado a trabalhar no natal, tem que cuidar de uma geringonça medonha daquelas, e ainda ouvir desaforo de rico metido a besta?!
- Delicado como? Queria que eu pedisse com licença e me desculpe pro Papai Noel? Ninguém mandou inventar que isso era de verdade.
- O senhor não tem filhos não?
- Graças a Deus não.
- O senhor devia ser penalizado sabia?
- Penalizado por quê? Por que não tenho filhos? Ou por que to fazendo o meu trabalho?
Nessa hora nós dois já estávamos falando alto e algumas pessoas passavam olhando assustadas, e foi quando a Solange chegou perto.
- Algum problema, senhor?
- Esse funcionário aqui arrancou a cabeça do papai-noel na frente da minha filha, sem nenhum tipo de aviso ou vergonha.
- Mas é a única forma que ele tem de arrumar, senhor.
- É, mas ele podia ter sido mais delicado.
- Mais delicado como pelo amor de Deus?! Não fui eu que inventei esta merda. Devia era reclamar pra quem fez isso assim.
- Calma, Jerônimo. Deixa que eu resolvo – ela disse e saiu com o homem, e ele ainda me deu uma última olhada de cima a baixo, parecia querer mostrar que era mais alto, e que isso dava mais importância, mas quanto maior, maior a queda, eu pensei, e voltei pro meu bom velhinho decapitado, e ainda aproveitei e dei uma relanciada pra ver a Solange.
Ela era uma morena dos cabelos em cachos e bonita de só vê, eu ficava impressionado com a seriedade dela como segurança. Devia ser braba e forte pra burro, porque uma vez assisti dar uma chave de braço num malandro que fez ele se contorcer todo de dor. Então eu gostava do jeito que ela conseguia ser feminina até naquele uniforme, tinha pose, mas quando dava o sorrisinho, mostrava que era mulher mulher mesmo. E eu já fazia tempo que atirava minhas pedras pra ver se conseguia alguma coisa, mas parecia ser trabalho demorado aquele. E eu gostava de passar por ela com minha escada e a caixa de ferramentas porque ela sempre me olhava com mais atenção. E quando eu estava lá no alto, com meu cinturão de couro e mexendo nos fios, ela passava em baixo, eu dava uma olhadela e ela sempre sorria de volta como quem gostava de me ver trabalhando. Não sei, mas acho que lá em cima eu fazia figura bonita, parecia importante, mais perto do céu, ainda mais com meu uniforme e todos aqueles apetrechos pendurados, devia dar um ar diferente, de gente grande.
- Pega leva da próxima, Jero – ela disse quando voltou – tive que convencer o cliente a não dar queixa tua.
- Dar queixa? Mais e o que eu fiz de errado?
- Nada, mas se o cliente acha que fez, pede desculpa e continua fazendo teu trabalho.
- Mas e pedir desculpa por que se eu não fiz nada errado?
- Tá, mas sabe como é essa gente.
- E é por isso mesmo que eu não peço desculpa. Ele acha o que? Que só porque pode vir comprar presente pra filha dele no shopping é melhor do que eu? Ele não sabe que o dinheiro que ele gasta aqui, acaba pagando meu salário? Quer me ferrar? Vai compra em outro lugar.
- Minha nossa, Jero! Calma. Pra que ficar tão nervoso?
- Ah... Tem coisa que me deixa fulo.
- É o tal problema com o natal? Você acha mesmo tão ruim assim?
- O problema é essas pessoas que vêm aqui me aporrinhar por nada e depois vai lá desejar feliz natal e paz no mundo. Se todo mundo aceitasse que cada um tem sua função e seu lugar, pronto. Eu sei fazer isso aqui e faço. Ele que vá fazer sei lá o que. Ou eu por um acaso reclamei que ele é rico e ganha mais dinheiro do que eu? É só uma questão de viver e deixar o outro viver. Pronto
- Tá bom, Jero. Tá bom. Agora vai fazer teu trabalho antes que outra criança venha chorar porque o papai-noel tá sem cabeça.
- Isso que tu não viu o que eu vou fazer com os pingüins.
- Ai, ai, ai, Jero. Tu não presta mesmo – Ela disse rindo e indo embora.
Pronto, eu ganhei mais um ponto, porque mulher gosta de homem que sabe ser engraçado, até quando está irritado, e, além disso, eu tinha mostrado que era homem de verdade, que tinha sangue nas veias.
Claro que mais tarde tive que me reportar pro chefe pra explicar tudo direitinho, e ele até deu risada, e disse que esse povo era assim mesmo, mas que da próxima vez eu devia fazer como a Solange disse, porque o cliente tem sempre razão.
De noite eu fui com minha escada fazer a manutenção de sempre, e, quando passei pela Solange, recebi mais um sorriso, afinal eu era o assunto do dia no shopping. Todos os colegas dali achavam que eu tinha que ter mais cuidado, mas mesmo assim eles me apoiavam e concordavam que quem estava errado era o cara.
Eu estava me sentindo muito mais por cima do que em qualquer outro natal e fui fazer meu serviço cheio de mim. Então vem o que eu digo: na vida é assim, a natureza é que manda. Eu estava lá em cima, me achando o cara, me sentindo o grandão, a Solange passou lá em baixo, eu fui olhar pra ela, ela me deu um sorrisinho, eu dei uma piscadinha, e foi aí que aconteceu. Não sei se foi descuido meu, ou se tinha alguma coisa errada na fiação em cima do pinheiro, mas eu sei foi que levei um choque que me derrubou da escada e tomei um tombo que podia ter sido bem pior se eu não tivesse caído em cima do monte de neve, umas neves feitas de algodão e espuma que amaciaram o tombo. Eu rolei abaixo e só fui parar porque bati nos pingüins que estavam parafusados no chão. Então fiquei um tempo deitado, tempo que não me lembro de sentir nada que não fosse meu coração batendo de um jeito que parecia ser no corpo todo, e o resto era só uma sensação estranha como se tivesse dado apagão na cabeça da gente.
FIM DA PARTE I
sábado, 22 de dezembro de 2012
Da Morte da Educação Humanística. Ou Por Que a Educação Não Pode se Tornar Utilitarista
A questão a ser aqui colocada é quanto ao sucateamento que deixa definhar a educação humanística. Pensemos não em humanística no sentido de educação redentora capaz de libertar os homens e torná-los todos intelectuais salvadores da pátria, mas sim na educação que ajuda o homem a ser humano, fazendo-o pensar não apenas técnica e utilitariamente, mas também pensar na vida em sociedade e nas relações pessoais.
Recentemente um estudante de direito de São Paulo foi agredido na rua por causa da sua opção sexual. O rapaz, militante da causa gay, disse que os agressores o provocaram, e ele respondeu à provocação por não aceitar que sua sexualidade deva ser alvo de xingamentos. Foi aí que os dois jovens partiram para a agressão física. Na sua entrevista, o rapaz questiona por que duas pessoas bem de vida, jovens, seriam capaz de entrar com o carro na contramão para atentar contra a vida de alguém que queria apenas chegar em casa. “Que fúria é essa que faz um cara que deve ter tido todas as oportunidades do mundo a bater em outra de forma tão agressiva? Por que a minha existência provoca uma fúria tão desumana?” Este questionamento perplexo bate num fundo problemático de nossa sociedade, e que poderíamos colocar em outras palavras assim: por que dois estudantes, com casa própria, carro, enfim, jovens que – dentro da terrível lógica da nossa sociedade atual – deveriam ter uma boa educação, tiveram uma atitude tão “primitiva” como essa?
Essa pergunta, acredito eu, serve para provocar a reflexão que quero trazer. Cada vez mais nós parecemos nos impressionar com as atitudes das outras pessoas, ou com o modo de pensar delas. Cada vez mais parece que estamos diante de um tempo em que o individualismo superou o respeito ao próximo. Isso tudo pode nos parecer absurdo, e ficamos a nos perguntar como comportamentos e pensamentos assim podem ainda existir num mundo tão moderno e avançado. O problema é que tendemos a confundir o avanço técnico-científico com o avanço ético e moral, o avanço tecnológico com o avanço humano. Porém, uma coisa não tem necessariamente relação com a outra. Já está mais do que provado de que a evolução do homem na área tecnológica não implica que estejamos também evoluindo como pessoas. O Século XX cansou de nos provar isso: suas duas grandes guerras e todas as suas outras tragédias nos mostraram que quanto mais marchamos para o aprimoramento da técnica, mais regredimos na capacidade de entender o outro e conviver com ele. O caso mais emblemático desse descompasso está no fenômeno que estamos vendo acontecer já há muito tempo e, ainda hoje, temos que, vergonhosamente, encarar: o sucateamento da educação humanística em detrimento do investimento na educação técnico-científica.
Em matéria do O Globo de hoje, ficamos sabendo que as ciências humanas perderam sua chance – já antes bem pequena, diga-se de passagem – de participar do programa Ciência Sem Fronteiras, que concede bolsas para graduação e pós no exterior. Isso é apenas mais um dos casos que ilustra o total desamparo das ciências humanas em relação às outras áreas do ensino. Qualquer pessoa que visitar o Instituto de Letras da UFRGS e depois for ao Instituto de Física (cito a UFRGS como exemplo porque conheço sua realidade) verá o abismo de qualidade na estrutura dos cursos. E isso você verá em outros Institutos ou Faculdades na área das humanas se comparados com qualquer outra área tecnológica – exceto algumas áreas etiquetadas como humanas, mas que acabam tendo investimentos maiores, pois dão mais “resultado” para a sociedade, como o Direito, a Economia entre outros.
E o problema não está apenas nas faculdades, mas também nas escolas, que recebem muito mais incentivo para o desenvolvimento dos cursos técnicos do que para as matérias “tradicionais” do currículo. Um pensamento utilitário terrível que acaba sendo internalizando pelos próprios alunos que se perguntam por que precisam estudar literatura, história, filosofia, sociologia ou geografia, em vez de aprenderem aquilo que sirva para eles quando forem entrar no mercado de trabalho.
A lógica assustadora por trás disso tudo é que a área das humanas não produz conhecimento “prático” e “útil” para a sociedade, pois, cada vez mais, o mercado e o sistema econômico em que vivemos pedem por profissionais com capacidades técnicas, mas não necessariamente capazes de pensar ou de saber viver em sociedade. Precisamos apenas de mais mão de obra que atendam a demanda do mercado, mas que não sejam capazes de saber respeitar o outro ou refletir sobre o mundo que nos rodeia, porque, obviamente, esse tipo de pensamento é inútil e não produz resultados. Cada vez mais, a educação, o ensino que prepara o aluno para ser humano é dispensável, pois não queremos mais pessoas no mundo, apenas novos autômatos.
É claro que a educação que eu chamo de humanística não é a salvadora do mundo. Mas ela é capaz de ajudar as pessoas a pensarem o mundo a sua volta, tornando-as capazes de conviver melhor entre si. Não estou dizendo que ela cura as mazelas, mas ajuda a desenvolver nas pessoas a capacidade de interpretar e compreender melhor a vida em sociedade, pois ela estabelece as bases para que sejamos capazes de enxergar no outro um ser humano como nós. O homem está constantemente interpretando as coisas a sua volta para tentar compreender melhor o mundo e saber como agir nele. Se insistirmos em uma educação voltada apenas para a técnica, com uma lógica meramente utilitária, é esse tipo de visão que vamos criar nos alunos, e é assim que eles passarão a interpretar o mundo: apenas utilitariamente, vendo o outro como algo que tem uma utilidade e não como uma pessoa igual a mim, que merece respeito e merece ser tratado como eu quero ser tratado.
Obviamente precisamos de investimentos na área técnica, precisamos possibilitar a nossos alunos sua entrada no mundo de trabalho, precisamos de mais e mais profissionais nessas áreas “práticas”. Acho que o investimento nas áreas tecnológicas é legítimo e deve continuar. O que não pode acontecer é simplesmente acabar com a educação humana; algo que está sendo feito gradativamente e silenciosamente, sem que ninguém perceba e se tornando cada vez mais natural – o que é ainda mais assustador.
Não podemos simplesmente achar que os cursos das artes e das humanas não merecem investimentos ou que não precisam de infraestrutura porque não produzem conhecimento útil para o mercado; afinal, eles produzem o conhecimento útil para a sociedade, e não vejo como podemos viver sem isso. Não vejo como podemos produzir cada vez mais engenheiros capazes de construir pontes perfeitas e seguras, mas incapazes de criar pontes entre ele e o outro do seu lado; como podemos produzir cada vez mais cirurgiões competentíssimos, mas incapazes de respeitar seus pacientes ou conviver com seus colegas; produzir mais especialistas em Tecnologia da Informação, mas incapazes de se comunicar com as pessoas a sua volta.
Se continuarmos insistindo nesse pensamento utilitarista da educação, continuaremos nos surpreendendo com jovens como aqueles que espancaram alguém só por causa da sua opção sexual. Continuaremos a ver o mundo avançando em tecnologias, mas regredindo em humanidade. Como escreveu Beatriz Sarlo, lembrando Gramsci e o caso da Itália já no início do século passado, a cultura humanística deve ser defendida não como um luxo, mas como uma necessidade.
Recentemente um estudante de direito de São Paulo foi agredido na rua por causa da sua opção sexual. O rapaz, militante da causa gay, disse que os agressores o provocaram, e ele respondeu à provocação por não aceitar que sua sexualidade deva ser alvo de xingamentos. Foi aí que os dois jovens partiram para a agressão física. Na sua entrevista, o rapaz questiona por que duas pessoas bem de vida, jovens, seriam capaz de entrar com o carro na contramão para atentar contra a vida de alguém que queria apenas chegar em casa. “Que fúria é essa que faz um cara que deve ter tido todas as oportunidades do mundo a bater em outra de forma tão agressiva? Por que a minha existência provoca uma fúria tão desumana?” Este questionamento perplexo bate num fundo problemático de nossa sociedade, e que poderíamos colocar em outras palavras assim: por que dois estudantes, com casa própria, carro, enfim, jovens que – dentro da terrível lógica da nossa sociedade atual – deveriam ter uma boa educação, tiveram uma atitude tão “primitiva” como essa?
Essa pergunta, acredito eu, serve para provocar a reflexão que quero trazer. Cada vez mais nós parecemos nos impressionar com as atitudes das outras pessoas, ou com o modo de pensar delas. Cada vez mais parece que estamos diante de um tempo em que o individualismo superou o respeito ao próximo. Isso tudo pode nos parecer absurdo, e ficamos a nos perguntar como comportamentos e pensamentos assim podem ainda existir num mundo tão moderno e avançado. O problema é que tendemos a confundir o avanço técnico-científico com o avanço ético e moral, o avanço tecnológico com o avanço humano. Porém, uma coisa não tem necessariamente relação com a outra. Já está mais do que provado de que a evolução do homem na área tecnológica não implica que estejamos também evoluindo como pessoas. O Século XX cansou de nos provar isso: suas duas grandes guerras e todas as suas outras tragédias nos mostraram que quanto mais marchamos para o aprimoramento da técnica, mais regredimos na capacidade de entender o outro e conviver com ele. O caso mais emblemático desse descompasso está no fenômeno que estamos vendo acontecer já há muito tempo e, ainda hoje, temos que, vergonhosamente, encarar: o sucateamento da educação humanística em detrimento do investimento na educação técnico-científica.
Em matéria do O Globo de hoje, ficamos sabendo que as ciências humanas perderam sua chance – já antes bem pequena, diga-se de passagem – de participar do programa Ciência Sem Fronteiras, que concede bolsas para graduação e pós no exterior. Isso é apenas mais um dos casos que ilustra o total desamparo das ciências humanas em relação às outras áreas do ensino. Qualquer pessoa que visitar o Instituto de Letras da UFRGS e depois for ao Instituto de Física (cito a UFRGS como exemplo porque conheço sua realidade) verá o abismo de qualidade na estrutura dos cursos. E isso você verá em outros Institutos ou Faculdades na área das humanas se comparados com qualquer outra área tecnológica – exceto algumas áreas etiquetadas como humanas, mas que acabam tendo investimentos maiores, pois dão mais “resultado” para a sociedade, como o Direito, a Economia entre outros.
E o problema não está apenas nas faculdades, mas também nas escolas, que recebem muito mais incentivo para o desenvolvimento dos cursos técnicos do que para as matérias “tradicionais” do currículo. Um pensamento utilitário terrível que acaba sendo internalizando pelos próprios alunos que se perguntam por que precisam estudar literatura, história, filosofia, sociologia ou geografia, em vez de aprenderem aquilo que sirva para eles quando forem entrar no mercado de trabalho.
A lógica assustadora por trás disso tudo é que a área das humanas não produz conhecimento “prático” e “útil” para a sociedade, pois, cada vez mais, o mercado e o sistema econômico em que vivemos pedem por profissionais com capacidades técnicas, mas não necessariamente capazes de pensar ou de saber viver em sociedade. Precisamos apenas de mais mão de obra que atendam a demanda do mercado, mas que não sejam capazes de saber respeitar o outro ou refletir sobre o mundo que nos rodeia, porque, obviamente, esse tipo de pensamento é inútil e não produz resultados. Cada vez mais, a educação, o ensino que prepara o aluno para ser humano é dispensável, pois não queremos mais pessoas no mundo, apenas novos autômatos.
É claro que a educação que eu chamo de humanística não é a salvadora do mundo. Mas ela é capaz de ajudar as pessoas a pensarem o mundo a sua volta, tornando-as capazes de conviver melhor entre si. Não estou dizendo que ela cura as mazelas, mas ajuda a desenvolver nas pessoas a capacidade de interpretar e compreender melhor a vida em sociedade, pois ela estabelece as bases para que sejamos capazes de enxergar no outro um ser humano como nós. O homem está constantemente interpretando as coisas a sua volta para tentar compreender melhor o mundo e saber como agir nele. Se insistirmos em uma educação voltada apenas para a técnica, com uma lógica meramente utilitária, é esse tipo de visão que vamos criar nos alunos, e é assim que eles passarão a interpretar o mundo: apenas utilitariamente, vendo o outro como algo que tem uma utilidade e não como uma pessoa igual a mim, que merece respeito e merece ser tratado como eu quero ser tratado.
Obviamente precisamos de investimentos na área técnica, precisamos possibilitar a nossos alunos sua entrada no mundo de trabalho, precisamos de mais e mais profissionais nessas áreas “práticas”. Acho que o investimento nas áreas tecnológicas é legítimo e deve continuar. O que não pode acontecer é simplesmente acabar com a educação humana; algo que está sendo feito gradativamente e silenciosamente, sem que ninguém perceba e se tornando cada vez mais natural – o que é ainda mais assustador.
Não podemos simplesmente achar que os cursos das artes e das humanas não merecem investimentos ou que não precisam de infraestrutura porque não produzem conhecimento útil para o mercado; afinal, eles produzem o conhecimento útil para a sociedade, e não vejo como podemos viver sem isso. Não vejo como podemos produzir cada vez mais engenheiros capazes de construir pontes perfeitas e seguras, mas incapazes de criar pontes entre ele e o outro do seu lado; como podemos produzir cada vez mais cirurgiões competentíssimos, mas incapazes de respeitar seus pacientes ou conviver com seus colegas; produzir mais especialistas em Tecnologia da Informação, mas incapazes de se comunicar com as pessoas a sua volta.
Se continuarmos insistindo nesse pensamento utilitarista da educação, continuaremos nos surpreendendo com jovens como aqueles que espancaram alguém só por causa da sua opção sexual. Continuaremos a ver o mundo avançando em tecnologias, mas regredindo em humanidade. Como escreveu Beatriz Sarlo, lembrando Gramsci e o caso da Itália já no início do século passado, a cultura humanística deve ser defendida não como um luxo, mas como uma necessidade.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Histórias do Fim do Mundo III
O Fim do Mundo
Então, o mundo não acabou, pensou Raul, sentado na sua poltrona, segurando uma lata de cerveja meio quente e olhando as notícias melancólicas no jornal da noite:
Dezembro de dois mil e doze. Milhares de pessoas se suicidaram e o mundo ficou bem mais vazio. Um grupo de milionários se reuniu num castelo em uma ilha e gastou suas fortunas em uma festa nunca antes vista. Beberam champanhe com doses homeopáticas de uma droga letal. Antes que pudessem ver que o tal último dia era só mais um dia, todos estavam mortos.
Raul pensou que era melhor assim. Se tivessem continuado vivos, se matariam de desgosto quando vissem suas fortunas gastas, e o mundo ainda inteiro. O fato é que, enquanto muitos haviam feito rituais bizarros ou se mataram por causa de uma profecia, Raul estava sentado na sua sala morrendo de calor e pateticamente olhando a televisão de sempre. Tudo isso pra provar que nada mudara. Mais um ano estava acabando, mais uma profecia furando, mais um fim de mundo passando e o mundo continuava na mesma, apenas mais vazio. Assim como a vida de Ra...
Bom mas na verdade, na segunda-feira, Raul descobriu que algo extraordinário havia acontecido e alguma coisa havia, no fim das contas, mudado na sua vida. Ela não estava mais rica, mas mais cheia de dinheiro. Ele estava mais rico.
O mundo era para acabar num sábado. Nesse dia, um temporal fortíssimo atingiu boa parte do planeta, e continuou chovendo no domingo, quando finalmente faltou luz em pelo menos todo o estado. Na segunda, por volta de umas cinco da tarde, ainda chovia, mas a luz começou a voltar.
A cidade havia ficado deserta, mas Raul achou que a volta da luz significaria a volta da rotina. Por isso, se levantou, praticou sua rotina caseira e foi até o caixa eletrônico. Precisava pegar o pouco de dinheiro que ainda restava pra poder começar a procurar emprego no dia seguinte. Seu chefe burro havia fechado a empresa e vendido tudo que tinha – mais um imbecil fazendo idiotices por causa de uma profecia.
Porém, qual não foi sua surpresa quando viu seu saldo surpreendentemente acima do normal! Estava, na verdade, simplesmente um milhão e meio acima do normal!
Desnorteado e sem saber o que fazer, Raul precisou ir até o bar mais próximo, tomar uma cerveja e depois um café – só não fumou porque estava firme na decisão de parar. Voltou pra casa e apenas conseguiu ficar sentado. Tentou pensar claramente. Havia acontecido um pequeno colapso no setor de energia, isso era certo. Não fora como o que disseram que iria acontecer, mas ainda assim, haviam ficado sem luz por quase dois dias. Talvez isso tenha afetado os sistemas dos bancos e alguma coisa tenha dado errado. Ficara sabendo que muitos funcionários de grandes bancos haviam surtado com o fim do mundo também, e tinham propiciado loucuras nas contas, dando prejuízos aos donos dos bancos. Ele não sabia se no seu banco isso havia acontecido, apenas achou que no fim das contas, quando as coisas começassem a voltar ao normal, no dia seguinte – porque todo dia seguinte traz as coisas de volta ao normal na experiência de Raul –, tudo seria solucionado e o dinheiro não estaria mais lá.
Achou melhor não cometer nenhuma loucura. Primeiro passou pela sua cabeça a possibilidade de retirar tudo, abrir a conta em outro banco, fechar aquela e, quando exigissem devolução do dinheiro, ele não devolveria. “O erro foi de vocês. Não tenho nada que ver com isso”, diria pra eles. Essa possibilidade passou por sua cabeça, mas se lembrou de como era incomodo lidar com os bancos.
Trabalhara durante dez anos no setor financeiro da empresa e sabia do que eles eram capazes. Sabia como seria uma dor de cabeça, um inferno, o fim do mundo, conseguir manter aquele dinheiro. Achou que era melhor esperar.
Apenas se sentou novamente no seu sofá, pegou mais uma cerveja e voltou a olhar a televisão pra ver o que estava acontecendo. Caos. Era isso que estava acontecendo. Pessoas que haviam cometido loucuras antes do tal fim do mundo agora estavam sem saber o que fazer. Milhares haviam se matado. O mundo estava certamente menos populoso. Suicídios coletivos e individuais, assassinatos: muitos decidiram resolver seus desafetos da forma mais drástica possível já que tudo iria acabar, outros quiseram dar vazão a seus instintos e impulsos. Resultado? Assassinos, patricidas, parricidas, fratricidas e todos os tipos de cidas que Raul podia imaginar.
Porém, uma prática, não muito difundida, mas que aconteceu nesse fim de mundo, e que não foi noticiada, foi a que o atingiu. Ele soube quando foi no banco no dia seguinte, e a quantia de um milhão e meio ainda estava em sua conta. Ele resolveu falar com a gerente. Era o fim do mundo pra alguns, mas pra ele o mundo continuava o mesmo e ele ainda temia se indispor com bancos. Foi então que soube que não havia nada de errado. Aquela quantia havia sido depositada na sua conta, por um senhor, que preferiu se manter anônimo, e que viera ao banco na sexta-feira, uns minutos antes da agência fechar. A gerente também explicou que mais de um caso daqueles havia acontecido na véspera – era provavelmente pessoas abaladas com o apocalipse.
- Mas se estavam abalados com o fim do mundo, por que doar dinheiro pra outra pessoa? O fim do mundo não ia chegar pra mim também?
Ela deu de ombros e não perdeu tempo em oferecer milhares de vantagens pra Raul e sua nova conta polpuda. Após algumas horas ouvindo as melhores vantagens de ser um cliente super-ouro-platina-diamante, ou coisa parecida, ele apenas assinou um contrato e foi pra casa. Nem mesmo seu cérebro, tão habituada a saber o que realmente prestava nessas papagaiadas todas, tão rápido em perceber onde estavam as armações, tão ligeiro em dizer não, nem mesmo ele serviu pra salvá-lo de ser um cliente com todas as vantagens que o banco pode oferecer pra sugar o seu dinheiro. Ele estava amortecido por causa de toda aquela situação. Nem mesmo dormiu, tentando imaginar quem teria sido o imbecil que doara aquela quantia e por que doara pra outro imbecil como ele. Não conhecia ninguém com tanto dinheiro que pudesse pensar nele pra dar toda aquela grana. Na verdade, não conseguia pensar em ninguém com todo aquele dinheiro. E por que ele? Por que escolher alguém como ele? Alguém tão... não sabia ao certo como se definir (e certamente nós também não saberemos como defini-lo), mas ele não se via como alguém merecedor de receber essa quantia, seja lá qual fosse a razão pra doação.
O sono demorou a vir, enquanto ele se perdia nas indagações, mas, em algum momento daquela madrugada quente e chuvosa, ele finalmente pegou no sono, e foi o sonho que teve naquela noite que o fez acordar cheio de decisões. A primeira coisa a fazer, ligou pra gerente e deu a descrição de um homem:
- Baixinho, cabelos grisalhos nas têmporas, terno impecável de risca de giz e um jeito irritadiço de falar e se mexer.
- Bem, ele não tinha um jeito irritadiço, senhor, muito pelo contrário, estava bem calmo. Diria quase deprimido. Mas ele era baixo, cabelos grisalhos nas têmporas e usava um terno impecável de risca de giz.
- Muito obrigado. Por favor, eu quero fechar a minha conta.
Certamente era o senhor Andrade; a única pessoa que usaria um terno impecável de risca de giz até mesmo na véspera do fim do mundo. Seu ex-chefe vendera tudo e, pelo jeito, o escolhera pra ser seu donatário. Por que não o filho mais velho? Por que não a mulher? Por que não o irmão mais novo? Porque eram todos imbecis como ele e também acreditavam no fim do mundo, pensou. Por que, então, havia sido ele o escolhido entre seus funcionários pra receber a bolada? Isso ele não sabia. E isso ainda iria continuar a incomodá-lo. Mas agora que sabia de onde viera o dinheiro e o que provavelmente aconteceria depois, sabia exatamente como agir: como sempre fazia.
Pegou o dinheiro, abriu uma nova conta em um banco que lhe era muito mais generoso, e começou a investir. Investir em que? Ora, não estava claro? Imóveis. Com a onde de suicídios e o monte de gente que vendera ou perdera tudo, mas não se matara, a matemática era fácil: imóveis sobrando e uma onda de compradores desesperados.
Comprou apartamentos e casas em diferentes áreas da cidade, dos mais caros aos mais baratos, além de alguns prédios comerciais. Os preços estavam ótimos. Conseguira começar as transações na hora certa, antes que a procura começasse a ser tanta que os preços inflacionariam.
Mas teria que esperar um pouco pra começar a alta dos preços. Primeiro, as pessoas que perderam tudo teriam que procurar os bancos pra pedir empréstimos, depois os bancos teriam que falar com o governo, que precisaria baixar alguma medida de emergência. Logo começariam as primeiras levas de compradores. Raul sabia que precisava de uma saída segura pra se caso algo saísse errado e, do que sobrou ele investiu em ações de empresas de donos que não haviam sido burros suficientes e mantiveram seus negócios. Na área de energia e informática ele conseguiu investimentos ótimos.
Gastou praticamente tudo que ganhara nesses investimentos e voltou a viver com o pouco que se acostumara. Nem quis começar a experimentar a vida de rico pra não se acostumar com um padrão muito alto. Esperaria ter uma renda suficiente pra não voltar a ser um assalariado. Depois, iria fazer tudo que sempre quis.
Não demorou até que a leva de desesperados enchesse os bancos de pedidos, e os bancos reclamassem com o governo que precisou tomar medidas de ajuda. Grande, pequeno e micro crédito começaram a inundar a praça, e as pessoas iniciaram a reconstrução de suas vidas. Logo Raul estava colhendo o que plantou. Seus imóveis mais baratos foram logo alugados. Uma de suas casas mais caras foi comprada. Esse dinheiro ele usou metade pra deixar na poupança e outra pra investir em mais alguma coisa lucrativa no mercado de ações: telefonia. As tais tempestades solares não haviam estragado nada e o setor de comunicação estava voltando a subir. Mais algum tempo e os prédios comerciais também foram alugados e, então, os apartamentos mais caros.
Se dois mil e doze havia sido um ano como qualquer outro pra Raul, sem ou qualquer perspectiva e sem nenhuma emoção, dois mil e treze entra com tudo, e ele, na páscoa, já era um dos homens mais ricos da cidade, talvez do estado. Estava na hora de fazer tudo que ele sempre quis fazer. Estava na hora de finalmente deixar de ser o contador medíocre que era pra ser um milionário e viajar pelo mundo, ter casa com piscina e carros importados. Beber bebida de primeira e comer nos melhores restaurantes. Estava na hora de achar uma mulher que pudesse encher de joias.
Bem quando estava planejando tudo isso, bateu a sua porta a pessoa que ele, desde o começo, estava esperando que viesse, mas que, no meio de toda aquela emoção econômica, havia esquecido completamente. Seu ex-chefe estava parado na sua frente, com os cabelos mais grisalhos, ainda mais baixo, porém com o bom e velho terno impecável de risca de giz e o jeito nervoso de falar e se mexer.
Raul não havia deixado de pensar por que ele fora escolhido pra receber o dinheiro, mas de certo modo isso ficara em segundo plano na sua mente ocupada com cálculos, negócios, compras e vendas, assinaturas de contratos e negociações de preços. Voltava a incomodá-lo de vez em quando, sempre quando conseguia relaxar. Voltava a ocupar alguns espaços de sua cabeça e dardejava por ali como um pássaro fraco que quer sair da gaiola, mas não tem forças. Nessas horas, se lembrava do seu chefe e sabia que era inevitável ele voltar. Mas acabava se esquecendo novamente, e, quando o momento finalmente chegou, ele percebeu que não estava preparado pra aquilo.
Convidou seu Andrade pra entrar e sentar. Os dois ficaram em uma troca de olhares constrangida por alguns segundos, enquanto Raul percebia como seu ex-chefe mantinha a velha pose. Ele era um homem grande, apesar de baixo. Não era gordo, mas era grande. Uma grandeza mais psicológica que física. Tinha postura, um olhar dominador, e um ar de autoridade, de quem tá sempre ocupado, o que era ressaltado por seus gestos e a fala sempre nervosos. Raul tentou se enxergar nele, mas não conseguiu. Era mais alto, magro e mais novo, mas nem de longe tinha aquela presença. Mesmo sentado naquele sofá velho, seu Andrade, de pernas cruzadas e as mãos sobre elas, parecia o dono, e Raul o funcionário. Mas dessa vez era o contrario. Ele era o dono, ele tinha o dinheiro – ele Raul, obviamente. Ou não?
- Seu Andrade – perguntou no velho tom baixo de voz – por que o senhor me escolheu pra dar aquele dinheiro?
O chefe olhou com olhos de falcão e deu um leve sorriso, como se já antecipasse tudo que viria.
- Justamente porque eu sabia que você cuidaria bem dele, exatamente como você fez.
- Como assim?
- Ora, ora, Raul – disse seu Andrade, se inclinando pra frente, na direção de seu empregado – Você sempre foi meu melhor funcionário. Eu sabia que podia contar com poucos naquela empresa pra manter o dinheiro a salvo. E sabia que você era o único que podia fazer muito mais. E veja! – ele fez um gesto largo, como se abarcasse o que sobrou do mundo – você fez! Você triplicou, quadruplicou a quantia que deixei com você.
- Deixou com?
- Claro! Você não achou que eu deixei pravocê, não é?
- Achei que tinha feito isso por causa do fim do mundo.
- E fiz. Claro que fiz. Você não percebeu a jogada de mestre?
- Não.
- Eu me retirei do mercado, dando a entender que temia o fim do mundo como todos os meus grandes concorrentes. Eu percebi que eles estavam falando sério e achei que se eu não entrasse na onda e permanecesse no mercado pra me aproveitar da situação, alguns deles iriam perceber a jogada e fazer o mesmo. Então, eu bolei toda aquela história pra poder deixar o dinheiro com alguém que eu sabia ter o mesmo espírito que eu, que eu sabia que não iria gastar tudo, mas que iria ser esperto o suficiente pra investir o dinheiro e criar essa fortuna.
- Mas eu pensei que o senhor... quer dizer... a sua esposa, filho, a sua família toda.
- Ora, mas isso fazia parte da encenação, não é mesmo? Inclusive não te avisar de nada. Afinal, tinha que ser perfeito! Eles todos sabiam disso. E estão todos bem e de volta. Quer dizer, a não ser o meu cunhado que... Ele era muito burro e... Mas isso não tem importância. O que importa é que você cumpriu seu papel e cumpriu acima das expectativas meu rapaz!
E seu Andrade estava quase segurando o rosto de Raul com as duas mãos nesse momento. Raul estava se sentido especial. Afinal de contas, alguém achava que ele valia algo, e o considerava capaz. E esse alguém era ninguém mais que seu Andrade!
- E o senhor quer o que agora?
- Ora, que voltemos a trabalhar juntos.
- Como sócios?
Nesse momento seu Andrade pareceu antever alguma coisa da qual não esperava, e seu largo sorriso vacilou um pouco, mas não o suficiente pra que alguém como Raul percebesse. Rápido como um falcão dando seu rasante, seu Andrade pulou para o sofá em sua frente, se sentando ao lado de Raul e colocando um de seus braços sobre os ombros deste. Raul sentiu até mesmo um certo estremecimento percorrer sua espinha: era como se ele fosse o novo preferido de seu Andrade, que nunca havia mais do que apertado a sua mão.
- Você sabe muito bem que sermos sócios incorre em termos de dirigir a empresa juntos, não é mesmo? E eu pensei que você não iria querer ter todo esse estresse em sua vida. Ah, porque é um estresse e tanto. Além disso, olhe bem pra nós, Raul. Você acha que coseguiria ser como eu e ser um chefe? Acha que conseguiria controlar aqueles empregados que são como aves de rapinas querendo rasgar nosso bucho a todo momento? Ah não! Com certeza não...
E Raul queria interromper seu chefe ali mesmo e lhe dizer que não precisava fazer isso, que ele seria o milionário viajando pelo mundo, enquanto seu Andrade seria o sócio que cuidaria de tudo. Afinal, ele havia construído aquela fortuna, ele sozinho havia feito todos os investimentos certos e negócios rendáveis, mesmo que fosse com o dinheiro inicial de seu Andrade. Mas ele não podia interromper o homem, pois ele falava como um imperador:
– Assim, como fui eu quem deu o dinheiro inicial que possibilitou você fazer tudo que fez, pensei que poderíamos voltar a ser como antigamente. Exceto, claro, que você agora deixaria de ser um mero contador pra ser o chefe do setor financeiro. Poderia mesmo empregar o Alfredo de volta só pra poder mandar nele, hãm? Hãm? O que me diz? Você gostaria de mandar naquele velhote sem vergonha, não é mesmo?
Ah gostaria sim, pensou Raul. Então ele seria o rei do pedaço. Seria o chefe do financeiro. O homem da grana. Todos o respeitariam e o olhariam com inveja. Ele reinaria na empresa, como nunca antes. Veja que maravilha. Veja que salto ele daria. Afinal de contas, seu Andrade tinha razão: ele não tinha vocação pra ser chefe. Não saberia o que fazer. Meteria os pés pelas mãos. Seria melhor assim. Voltaria a fazer o que sabia, ganharia um pouco mais, teria sua própria sala e mandaria no velho Alfredo (se ele não tivesse se matado também).
- Temos que redigir os documentos – ele disse.
- Ora não se preocupe. Eu já providenciei isso com meus advogados.
Nossa! Seu Andrade era mesmo muito eficiente. Ele nunca seria tão rápido assim no pensamento. O homem era uma fera e ele estava recém aprendendo. E o que era melhor, aquela homem o havia escolhido, e ele seria, a partir de agora, seu preferido. No fim das contas, dois mil e treze estava realmente começando muito bem pra Raul.
Então, o mundo não acabou, pensou Raul, sentado na sua poltrona, segurando uma lata de cerveja meio quente e olhando as notícias melancólicas no jornal da noite:
Dezembro de dois mil e doze. Milhares de pessoas se suicidaram e o mundo ficou bem mais vazio. Um grupo de milionários se reuniu num castelo em uma ilha e gastou suas fortunas em uma festa nunca antes vista. Beberam champanhe com doses homeopáticas de uma droga letal. Antes que pudessem ver que o tal último dia era só mais um dia, todos estavam mortos.
Raul pensou que era melhor assim. Se tivessem continuado vivos, se matariam de desgosto quando vissem suas fortunas gastas, e o mundo ainda inteiro. O fato é que, enquanto muitos haviam feito rituais bizarros ou se mataram por causa de uma profecia, Raul estava sentado na sua sala morrendo de calor e pateticamente olhando a televisão de sempre. Tudo isso pra provar que nada mudara. Mais um ano estava acabando, mais uma profecia furando, mais um fim de mundo passando e o mundo continuava na mesma, apenas mais vazio. Assim como a vida de Ra...
Bom mas na verdade, na segunda-feira, Raul descobriu que algo extraordinário havia acontecido e alguma coisa havia, no fim das contas, mudado na sua vida. Ela não estava mais rica, mas mais cheia de dinheiro. Ele estava mais rico.
O mundo era para acabar num sábado. Nesse dia, um temporal fortíssimo atingiu boa parte do planeta, e continuou chovendo no domingo, quando finalmente faltou luz em pelo menos todo o estado. Na segunda, por volta de umas cinco da tarde, ainda chovia, mas a luz começou a voltar.
A cidade havia ficado deserta, mas Raul achou que a volta da luz significaria a volta da rotina. Por isso, se levantou, praticou sua rotina caseira e foi até o caixa eletrônico. Precisava pegar o pouco de dinheiro que ainda restava pra poder começar a procurar emprego no dia seguinte. Seu chefe burro havia fechado a empresa e vendido tudo que tinha – mais um imbecil fazendo idiotices por causa de uma profecia.
Porém, qual não foi sua surpresa quando viu seu saldo surpreendentemente acima do normal! Estava, na verdade, simplesmente um milhão e meio acima do normal!
Desnorteado e sem saber o que fazer, Raul precisou ir até o bar mais próximo, tomar uma cerveja e depois um café – só não fumou porque estava firme na decisão de parar. Voltou pra casa e apenas conseguiu ficar sentado. Tentou pensar claramente. Havia acontecido um pequeno colapso no setor de energia, isso era certo. Não fora como o que disseram que iria acontecer, mas ainda assim, haviam ficado sem luz por quase dois dias. Talvez isso tenha afetado os sistemas dos bancos e alguma coisa tenha dado errado. Ficara sabendo que muitos funcionários de grandes bancos haviam surtado com o fim do mundo também, e tinham propiciado loucuras nas contas, dando prejuízos aos donos dos bancos. Ele não sabia se no seu banco isso havia acontecido, apenas achou que no fim das contas, quando as coisas começassem a voltar ao normal, no dia seguinte – porque todo dia seguinte traz as coisas de volta ao normal na experiência de Raul –, tudo seria solucionado e o dinheiro não estaria mais lá.
Achou melhor não cometer nenhuma loucura. Primeiro passou pela sua cabeça a possibilidade de retirar tudo, abrir a conta em outro banco, fechar aquela e, quando exigissem devolução do dinheiro, ele não devolveria. “O erro foi de vocês. Não tenho nada que ver com isso”, diria pra eles. Essa possibilidade passou por sua cabeça, mas se lembrou de como era incomodo lidar com os bancos.
Trabalhara durante dez anos no setor financeiro da empresa e sabia do que eles eram capazes. Sabia como seria uma dor de cabeça, um inferno, o fim do mundo, conseguir manter aquele dinheiro. Achou que era melhor esperar.
Apenas se sentou novamente no seu sofá, pegou mais uma cerveja e voltou a olhar a televisão pra ver o que estava acontecendo. Caos. Era isso que estava acontecendo. Pessoas que haviam cometido loucuras antes do tal fim do mundo agora estavam sem saber o que fazer. Milhares haviam se matado. O mundo estava certamente menos populoso. Suicídios coletivos e individuais, assassinatos: muitos decidiram resolver seus desafetos da forma mais drástica possível já que tudo iria acabar, outros quiseram dar vazão a seus instintos e impulsos. Resultado? Assassinos, patricidas, parricidas, fratricidas e todos os tipos de cidas que Raul podia imaginar.
Porém, uma prática, não muito difundida, mas que aconteceu nesse fim de mundo, e que não foi noticiada, foi a que o atingiu. Ele soube quando foi no banco no dia seguinte, e a quantia de um milhão e meio ainda estava em sua conta. Ele resolveu falar com a gerente. Era o fim do mundo pra alguns, mas pra ele o mundo continuava o mesmo e ele ainda temia se indispor com bancos. Foi então que soube que não havia nada de errado. Aquela quantia havia sido depositada na sua conta, por um senhor, que preferiu se manter anônimo, e que viera ao banco na sexta-feira, uns minutos antes da agência fechar. A gerente também explicou que mais de um caso daqueles havia acontecido na véspera – era provavelmente pessoas abaladas com o apocalipse.
- Mas se estavam abalados com o fim do mundo, por que doar dinheiro pra outra pessoa? O fim do mundo não ia chegar pra mim também?
Ela deu de ombros e não perdeu tempo em oferecer milhares de vantagens pra Raul e sua nova conta polpuda. Após algumas horas ouvindo as melhores vantagens de ser um cliente super-ouro-platina-diamante, ou coisa parecida, ele apenas assinou um contrato e foi pra casa. Nem mesmo seu cérebro, tão habituada a saber o que realmente prestava nessas papagaiadas todas, tão rápido em perceber onde estavam as armações, tão ligeiro em dizer não, nem mesmo ele serviu pra salvá-lo de ser um cliente com todas as vantagens que o banco pode oferecer pra sugar o seu dinheiro. Ele estava amortecido por causa de toda aquela situação. Nem mesmo dormiu, tentando imaginar quem teria sido o imbecil que doara aquela quantia e por que doara pra outro imbecil como ele. Não conhecia ninguém com tanto dinheiro que pudesse pensar nele pra dar toda aquela grana. Na verdade, não conseguia pensar em ninguém com todo aquele dinheiro. E por que ele? Por que escolher alguém como ele? Alguém tão... não sabia ao certo como se definir (e certamente nós também não saberemos como defini-lo), mas ele não se via como alguém merecedor de receber essa quantia, seja lá qual fosse a razão pra doação.
O sono demorou a vir, enquanto ele se perdia nas indagações, mas, em algum momento daquela madrugada quente e chuvosa, ele finalmente pegou no sono, e foi o sonho que teve naquela noite que o fez acordar cheio de decisões. A primeira coisa a fazer, ligou pra gerente e deu a descrição de um homem:
- Baixinho, cabelos grisalhos nas têmporas, terno impecável de risca de giz e um jeito irritadiço de falar e se mexer.
- Bem, ele não tinha um jeito irritadiço, senhor, muito pelo contrário, estava bem calmo. Diria quase deprimido. Mas ele era baixo, cabelos grisalhos nas têmporas e usava um terno impecável de risca de giz.
- Muito obrigado. Por favor, eu quero fechar a minha conta.
Certamente era o senhor Andrade; a única pessoa que usaria um terno impecável de risca de giz até mesmo na véspera do fim do mundo. Seu ex-chefe vendera tudo e, pelo jeito, o escolhera pra ser seu donatário. Por que não o filho mais velho? Por que não a mulher? Por que não o irmão mais novo? Porque eram todos imbecis como ele e também acreditavam no fim do mundo, pensou. Por que, então, havia sido ele o escolhido entre seus funcionários pra receber a bolada? Isso ele não sabia. E isso ainda iria continuar a incomodá-lo. Mas agora que sabia de onde viera o dinheiro e o que provavelmente aconteceria depois, sabia exatamente como agir: como sempre fazia.
Pegou o dinheiro, abriu uma nova conta em um banco que lhe era muito mais generoso, e começou a investir. Investir em que? Ora, não estava claro? Imóveis. Com a onde de suicídios e o monte de gente que vendera ou perdera tudo, mas não se matara, a matemática era fácil: imóveis sobrando e uma onda de compradores desesperados.
Comprou apartamentos e casas em diferentes áreas da cidade, dos mais caros aos mais baratos, além de alguns prédios comerciais. Os preços estavam ótimos. Conseguira começar as transações na hora certa, antes que a procura começasse a ser tanta que os preços inflacionariam.
Mas teria que esperar um pouco pra começar a alta dos preços. Primeiro, as pessoas que perderam tudo teriam que procurar os bancos pra pedir empréstimos, depois os bancos teriam que falar com o governo, que precisaria baixar alguma medida de emergência. Logo começariam as primeiras levas de compradores. Raul sabia que precisava de uma saída segura pra se caso algo saísse errado e, do que sobrou ele investiu em ações de empresas de donos que não haviam sido burros suficientes e mantiveram seus negócios. Na área de energia e informática ele conseguiu investimentos ótimos.
Gastou praticamente tudo que ganhara nesses investimentos e voltou a viver com o pouco que se acostumara. Nem quis começar a experimentar a vida de rico pra não se acostumar com um padrão muito alto. Esperaria ter uma renda suficiente pra não voltar a ser um assalariado. Depois, iria fazer tudo que sempre quis.
Não demorou até que a leva de desesperados enchesse os bancos de pedidos, e os bancos reclamassem com o governo que precisou tomar medidas de ajuda. Grande, pequeno e micro crédito começaram a inundar a praça, e as pessoas iniciaram a reconstrução de suas vidas. Logo Raul estava colhendo o que plantou. Seus imóveis mais baratos foram logo alugados. Uma de suas casas mais caras foi comprada. Esse dinheiro ele usou metade pra deixar na poupança e outra pra investir em mais alguma coisa lucrativa no mercado de ações: telefonia. As tais tempestades solares não haviam estragado nada e o setor de comunicação estava voltando a subir. Mais algum tempo e os prédios comerciais também foram alugados e, então, os apartamentos mais caros.
Se dois mil e doze havia sido um ano como qualquer outro pra Raul, sem ou qualquer perspectiva e sem nenhuma emoção, dois mil e treze entra com tudo, e ele, na páscoa, já era um dos homens mais ricos da cidade, talvez do estado. Estava na hora de fazer tudo que ele sempre quis fazer. Estava na hora de finalmente deixar de ser o contador medíocre que era pra ser um milionário e viajar pelo mundo, ter casa com piscina e carros importados. Beber bebida de primeira e comer nos melhores restaurantes. Estava na hora de achar uma mulher que pudesse encher de joias.
Bem quando estava planejando tudo isso, bateu a sua porta a pessoa que ele, desde o começo, estava esperando que viesse, mas que, no meio de toda aquela emoção econômica, havia esquecido completamente. Seu ex-chefe estava parado na sua frente, com os cabelos mais grisalhos, ainda mais baixo, porém com o bom e velho terno impecável de risca de giz e o jeito nervoso de falar e se mexer.
Raul não havia deixado de pensar por que ele fora escolhido pra receber o dinheiro, mas de certo modo isso ficara em segundo plano na sua mente ocupada com cálculos, negócios, compras e vendas, assinaturas de contratos e negociações de preços. Voltava a incomodá-lo de vez em quando, sempre quando conseguia relaxar. Voltava a ocupar alguns espaços de sua cabeça e dardejava por ali como um pássaro fraco que quer sair da gaiola, mas não tem forças. Nessas horas, se lembrava do seu chefe e sabia que era inevitável ele voltar. Mas acabava se esquecendo novamente, e, quando o momento finalmente chegou, ele percebeu que não estava preparado pra aquilo.
Convidou seu Andrade pra entrar e sentar. Os dois ficaram em uma troca de olhares constrangida por alguns segundos, enquanto Raul percebia como seu ex-chefe mantinha a velha pose. Ele era um homem grande, apesar de baixo. Não era gordo, mas era grande. Uma grandeza mais psicológica que física. Tinha postura, um olhar dominador, e um ar de autoridade, de quem tá sempre ocupado, o que era ressaltado por seus gestos e a fala sempre nervosos. Raul tentou se enxergar nele, mas não conseguiu. Era mais alto, magro e mais novo, mas nem de longe tinha aquela presença. Mesmo sentado naquele sofá velho, seu Andrade, de pernas cruzadas e as mãos sobre elas, parecia o dono, e Raul o funcionário. Mas dessa vez era o contrario. Ele era o dono, ele tinha o dinheiro – ele Raul, obviamente. Ou não?
- Seu Andrade – perguntou no velho tom baixo de voz – por que o senhor me escolheu pra dar aquele dinheiro?
O chefe olhou com olhos de falcão e deu um leve sorriso, como se já antecipasse tudo que viria.
- Justamente porque eu sabia que você cuidaria bem dele, exatamente como você fez.
- Como assim?
- Ora, ora, Raul – disse seu Andrade, se inclinando pra frente, na direção de seu empregado – Você sempre foi meu melhor funcionário. Eu sabia que podia contar com poucos naquela empresa pra manter o dinheiro a salvo. E sabia que você era o único que podia fazer muito mais. E veja! – ele fez um gesto largo, como se abarcasse o que sobrou do mundo – você fez! Você triplicou, quadruplicou a quantia que deixei com você.
- Deixou com?
- Claro! Você não achou que eu deixei pravocê, não é?
- Achei que tinha feito isso por causa do fim do mundo.
- E fiz. Claro que fiz. Você não percebeu a jogada de mestre?
- Não.
- Eu me retirei do mercado, dando a entender que temia o fim do mundo como todos os meus grandes concorrentes. Eu percebi que eles estavam falando sério e achei que se eu não entrasse na onda e permanecesse no mercado pra me aproveitar da situação, alguns deles iriam perceber a jogada e fazer o mesmo. Então, eu bolei toda aquela história pra poder deixar o dinheiro com alguém que eu sabia ter o mesmo espírito que eu, que eu sabia que não iria gastar tudo, mas que iria ser esperto o suficiente pra investir o dinheiro e criar essa fortuna.
- Mas eu pensei que o senhor... quer dizer... a sua esposa, filho, a sua família toda.
- Ora, mas isso fazia parte da encenação, não é mesmo? Inclusive não te avisar de nada. Afinal, tinha que ser perfeito! Eles todos sabiam disso. E estão todos bem e de volta. Quer dizer, a não ser o meu cunhado que... Ele era muito burro e... Mas isso não tem importância. O que importa é que você cumpriu seu papel e cumpriu acima das expectativas meu rapaz!
E seu Andrade estava quase segurando o rosto de Raul com as duas mãos nesse momento. Raul estava se sentido especial. Afinal de contas, alguém achava que ele valia algo, e o considerava capaz. E esse alguém era ninguém mais que seu Andrade!
- E o senhor quer o que agora?
- Ora, que voltemos a trabalhar juntos.
- Como sócios?
Nesse momento seu Andrade pareceu antever alguma coisa da qual não esperava, e seu largo sorriso vacilou um pouco, mas não o suficiente pra que alguém como Raul percebesse. Rápido como um falcão dando seu rasante, seu Andrade pulou para o sofá em sua frente, se sentando ao lado de Raul e colocando um de seus braços sobre os ombros deste. Raul sentiu até mesmo um certo estremecimento percorrer sua espinha: era como se ele fosse o novo preferido de seu Andrade, que nunca havia mais do que apertado a sua mão.
- Você sabe muito bem que sermos sócios incorre em termos de dirigir a empresa juntos, não é mesmo? E eu pensei que você não iria querer ter todo esse estresse em sua vida. Ah, porque é um estresse e tanto. Além disso, olhe bem pra nós, Raul. Você acha que coseguiria ser como eu e ser um chefe? Acha que conseguiria controlar aqueles empregados que são como aves de rapinas querendo rasgar nosso bucho a todo momento? Ah não! Com certeza não...
E Raul queria interromper seu chefe ali mesmo e lhe dizer que não precisava fazer isso, que ele seria o milionário viajando pelo mundo, enquanto seu Andrade seria o sócio que cuidaria de tudo. Afinal, ele havia construído aquela fortuna, ele sozinho havia feito todos os investimentos certos e negócios rendáveis, mesmo que fosse com o dinheiro inicial de seu Andrade. Mas ele não podia interromper o homem, pois ele falava como um imperador:
– Assim, como fui eu quem deu o dinheiro inicial que possibilitou você fazer tudo que fez, pensei que poderíamos voltar a ser como antigamente. Exceto, claro, que você agora deixaria de ser um mero contador pra ser o chefe do setor financeiro. Poderia mesmo empregar o Alfredo de volta só pra poder mandar nele, hãm? Hãm? O que me diz? Você gostaria de mandar naquele velhote sem vergonha, não é mesmo?
Ah gostaria sim, pensou Raul. Então ele seria o rei do pedaço. Seria o chefe do financeiro. O homem da grana. Todos o respeitariam e o olhariam com inveja. Ele reinaria na empresa, como nunca antes. Veja que maravilha. Veja que salto ele daria. Afinal de contas, seu Andrade tinha razão: ele não tinha vocação pra ser chefe. Não saberia o que fazer. Meteria os pés pelas mãos. Seria melhor assim. Voltaria a fazer o que sabia, ganharia um pouco mais, teria sua própria sala e mandaria no velho Alfredo (se ele não tivesse se matado também).
- Temos que redigir os documentos – ele disse.
- Ora não se preocupe. Eu já providenciei isso com meus advogados.
Nossa! Seu Andrade era mesmo muito eficiente. Ele nunca seria tão rápido assim no pensamento. O homem era uma fera e ele estava recém aprendendo. E o que era melhor, aquela homem o havia escolhido, e ele seria, a partir de agora, seu preferido. No fim das contas, dois mil e treze estava realmente começando muito bem pra Raul.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Histórias do Fim do Mundo II
“Eu Também”
“Caralho! que calor do inferno. Já faz dois dias que chove e mesmo assim o calor não para! Pior. Só piora! Tá mais quente ainda, se é que é possível. A merda do sistema de energia foi pro pau e eu to sem ar-condicionado. A bateria do meu note tá acabando eu ainda não terminei de arrumar esse maldito site. É pra fuder. O mundo não acabou, to sem dinheiro, só um cliente não cancelou pedido e eu não vou conseguir entregar esse merda porque falta luz desde ontem. Caralho! que foto podre é essa? Vai se fuder, pati dos diabos! Parece uma puta! Como é que eu sou amiga de uma loca dessas? Ah! Claro! Amiga da Arlete. Só podia. Aquela lagartixa podia ter saído da minha vida por completo. Ah vou mandar a merda! Por que não faltou luz no prédio do Zuckerberg e essa bosta de Facebook não saiu do ar? Por que a internet ainda funciona? Será que só nesse fim de mundo de cidade é que não tem mais luz? Cadê as tais tempestades solares que iam deixar os sistemas de informação em colapso?
Foda-se! O mundo não acabou, um monte de gente se matou, uma chuvinha de dois dias tá deixando o resto apavorado e eu to aqui, presa nesse apartamento chinelo, sem ar, sem geladeira pra gelar minha vodka, sem limão, sem aquela vadia que foi embora porque não queria passar os últimos dias de sua vida comigo. Tomara que tenha morrido aquela lagartixa sem rabo! Tomara que tenha sido esmagada antes do rabo crescer. Onde eu tava na cabeça pra pedir pra ela morar comigo?
Preciso de um cigarro. Espero que isso ainda tenha. Puta que pariu! Nem cigarro?! O mundo não acabou, mas parece que acabou! Antes tivesse tudo ido pro espaço. Pelo menos essa merda não continuava. Como é que eu vou fazer? Descer pra comprar cigarro onde? Será que algum armazém tá funcionando? Daqui não dá pra ver nada... essa chuva maldita! São três horas da tarde de segunda e nenhum carro na rua. Parece que eu to no meio do apocalipse zumbi. Bem que podia ser. Bem que eu podia encontrar aquela lagartixa sem rabo transformada num bicho daqueles. Queria ter o prazer de enterrar um machado na cabeça dela, como se fosse um melão. Era mais vazia que um melão. Ai linda, tu não devia deixar esse cabelo assim. Tu vai parecer uma machorra. Caralho sua puta burra! Eu sou uma machorra! Não tá vendo? Namora comigo faz três anos, veio morar comigo e ainda não percebeu que eu sou uma machorra? E para de usar esse tu de merda pra parecer que é porto-alegrense. Tu é de Soledade, vaca desmiolada!
Cruzes! Como é que eu to tão irritada assim? São só lembranças. Só? Hum... Eu definitivamente preciso de um cigarro. Vou descer e que se foda!
Ah! Essa chuva quente não dá nem pra se molhar nela, parece mijo. Queria que os maias tivessem acertado pelo menos metade e meio mundo tivesse sido destruído. Cidadezinha de merda como essa podia ter ficado debaixo d’água. Cachorro burro sai da rua, vai ser atropelado! Puf! Por quem? Nem carroceiro tá na rua hoje. Porra! Nem o armazém do seu Juarez tá aberto. É pra fuder! O veio é o único que abre em feriado, com tornado, maremoto, na segunda vinda de Cristo... o velho não perde a chance de faturar um. Se nem ele abriu hoje, não vou conseguir cigarro. Ai merda! merda! merda! Por que é tão difícil conseguir só um cigarro? O mundo não acabou porra! O que tu tá olhando mendigo dos infernos? Vai catá lixo e me erra! Não posso mais gritar na rua?
Ai! Que pilha de nervos. Será que eu to na TPM? Ideia estúpida parar de marcar só porque o mundo tava pra acabar. Nem eu escapei dessa crença do caralho. Devia ter continuado tomando pílula. Acho que vou no Zaffari da Lima. Preciso de uma farmácia! Preciso de um cigarro! Preciso da energia! Preciso trabalhar e ganhar dinheiro! Preciso... aí que dor! Puta que pariu! O que tá acontecendo comigo? Se pelo menos eu conseguisse chorar...
No fim das contas... quem ia querer morar comigo desse jeito? Ela era a única que me aguentava afinal. Se não fosse a desmiolada que era, não teria me aguentado. Ela deve ter cigarro em casa. Sempre tinha. E pílula também. Ah! Ela certamente sabe seu eu to na TPM. Sempre sabia meu ciclo. Não posso fazer isso. Não vou fazer essa merda. Imagina se chego lá e me dizem que ela se matou?...
(Vou ir até o Zaffari. Eles devem ter gerador próprio)
... É bem capaz dela ter feito isso. Bem coisa dela. Mas e se chego lá e ela tá em casa? Oi, me vê um cigarro? Sabe se eu to na TPM? Quer trepar?
Ai que ódio! Eu não posso tá pensando essas coisas. Não com ela. Eu odeio ela. Quero enterrar um machado naquela cabeça se ela for um zumbi. Droga! Eu nem tenho um machado. Não tenho cigarro, ar-condicionado, limão, a vodka não tá gelada, a cidade tá parada, não tenho mais aquela lagartixa sem rabo....
Por que digo isso? Ela tinha um rabo tão lindo. Que bundinha mais lisa e empinadinha. Tão boa de morder.
Porra! O que eu to fazendo aqui? Eu devia ter ido pro Zaffari. Como vim parar aqui? Merda! merda! merda! Agora o que eu faço? Toco a campainha? Não. Não tem energia. Vou embora. Mas ela deve ter cigarro. É só por isso que eu vim. E pra saber o ciclo. Isso. Só por isso. Peço, pergunto e vou embora. Pronto.
Ai merda! Eu devia ir embora... Agora foda-se! Alguém já ouviu e vem vindo.
Oi Arlete... como você tá?... Pois é, né? O mundo não acabou no fim das contas. Que bom que você não se matou... O que? Não, eu não pensei que. Bem um pouco, talvez. Você era. É meio dramática... O que? Pois é não sei. Não falei com ninguém da galera ainda. Não sei se alguém se matou ou não. Acho que ninguém foi se encontrar lá na frente ontem. Eu tava indo pra lá vê se tá aberto. Mas pensei. Bem. Sei lá. Será que você tem um cigarro pra me conseguir? To sem nenhum e não tem nada aberto. Ah, obrigado... Então você tá bem mesmo?... É, eu sei. Não devia ter te dito aquelas coisas. Mas você também não precisava ter me dito que queria me deixar bem na véspera do fim do mundo... Não interessa Arlete! Três dias antes já é véspera!... Aí! Você sempre me aturou assim... Tá! Tá bom! Escuta! Vamos parar por aqui. Não quero que você chore na minha frente... Porque eu fico com vontade de te abraçar e te beijar e aí vai me dar vontade de trepar... Merda Arlete! Eu sempre usei essa palavra... Porque eu não consigo dizer “fazer amor”. Mas não quer dizer que quando eu dizia trepar ou fuder não tinha amor. É só uma questão de palavras... Tá bom Arlete! Eu vou embora! É melhor assim. Obrigada pelo cigarro. Vê se se cuida. O mundo não acabou, mas parece que só sobrou o inferno.
Ufa! Um cigarro! Até a chuva parece refrescar mais. Ah! Agora essa porra de armazém abriu. Vou logo comprar um estoque de cigarros. E limão.
Olha só. Um carro na rua. Parece que o mundo resolveu sair de casa. Quem sabe se não para de chover, só pra variar? Tá. Também foi pedir demais. Merda! Não quero nem pensar subir esses cinco lances de escadas agora. O que? Luz? Sério? Puta que pariu! É eu dar uma volta na rua e as coisas parecem voltar ao normal!
Ai que maravilha! Ligar meu ar. Fumar. Gelar minha vodka! Ai meu sofá!
Caralho! Eu disse que era com “amor”. Eu usei a palavra “amor”! Amor! Puta que pariu! Ela vai achar que... Eu disse isso? disse? O que ela vai achar? O que vai passar por aquela cabecinha vazia? Ela certo que vai... ah ela vai! Caralho! O que eu fiz? Será que?... Parece que sim. Mas...
Foda-se! Vou trabalhar. Agora eu consigo terminar essa merda.
Ai caralho! O telefone! Onde ficou essa porra? Já vai! já vai! Já vai! Cadê essa merda!? Ah!
Alô? Oi... Vir aqui? Mas eu acabei de sair daí... Ai meu Deus Arlete! Não me entenda mal, mas não foi bem isso que eu quis dizer. É que, nós tinha algo legal, mas... você sabe que era carnal, não era?... Eu sei que eu disse, mas... sim, mas... eu sei que... Tá. Tá bom! Escuta... Me escuta! Você lembra do meu ciclo menstrual? Lembra!? Ótimo! Você não quer passar numa farmácia e me trazer uma pílula? Daí a gente conversa. Vem de noite que agora eu preciso trabalhar. Tá bom. Beijo. Eu também.
Bom... Pelo menos vou ter sexo essa...
Caralho! Eu disse “eu também”? Puta que pariu o que será que ela vai pensar? Eu disse “eu também”?... Porra! Eu disse "eu também".
“Caralho! que calor do inferno. Já faz dois dias que chove e mesmo assim o calor não para! Pior. Só piora! Tá mais quente ainda, se é que é possível. A merda do sistema de energia foi pro pau e eu to sem ar-condicionado. A bateria do meu note tá acabando eu ainda não terminei de arrumar esse maldito site. É pra fuder. O mundo não acabou, to sem dinheiro, só um cliente não cancelou pedido e eu não vou conseguir entregar esse merda porque falta luz desde ontem. Caralho! que foto podre é essa? Vai se fuder, pati dos diabos! Parece uma puta! Como é que eu sou amiga de uma loca dessas? Ah! Claro! Amiga da Arlete. Só podia. Aquela lagartixa podia ter saído da minha vida por completo. Ah vou mandar a merda! Por que não faltou luz no prédio do Zuckerberg e essa bosta de Facebook não saiu do ar? Por que a internet ainda funciona? Será que só nesse fim de mundo de cidade é que não tem mais luz? Cadê as tais tempestades solares que iam deixar os sistemas de informação em colapso?
Foda-se! O mundo não acabou, um monte de gente se matou, uma chuvinha de dois dias tá deixando o resto apavorado e eu to aqui, presa nesse apartamento chinelo, sem ar, sem geladeira pra gelar minha vodka, sem limão, sem aquela vadia que foi embora porque não queria passar os últimos dias de sua vida comigo. Tomara que tenha morrido aquela lagartixa sem rabo! Tomara que tenha sido esmagada antes do rabo crescer. Onde eu tava na cabeça pra pedir pra ela morar comigo?
Preciso de um cigarro. Espero que isso ainda tenha. Puta que pariu! Nem cigarro?! O mundo não acabou, mas parece que acabou! Antes tivesse tudo ido pro espaço. Pelo menos essa merda não continuava. Como é que eu vou fazer? Descer pra comprar cigarro onde? Será que algum armazém tá funcionando? Daqui não dá pra ver nada... essa chuva maldita! São três horas da tarde de segunda e nenhum carro na rua. Parece que eu to no meio do apocalipse zumbi. Bem que podia ser. Bem que eu podia encontrar aquela lagartixa sem rabo transformada num bicho daqueles. Queria ter o prazer de enterrar um machado na cabeça dela, como se fosse um melão. Era mais vazia que um melão. Ai linda, tu não devia deixar esse cabelo assim. Tu vai parecer uma machorra. Caralho sua puta burra! Eu sou uma machorra! Não tá vendo? Namora comigo faz três anos, veio morar comigo e ainda não percebeu que eu sou uma machorra? E para de usar esse tu de merda pra parecer que é porto-alegrense. Tu é de Soledade, vaca desmiolada!
Cruzes! Como é que eu to tão irritada assim? São só lembranças. Só? Hum... Eu definitivamente preciso de um cigarro. Vou descer e que se foda!
Ah! Essa chuva quente não dá nem pra se molhar nela, parece mijo. Queria que os maias tivessem acertado pelo menos metade e meio mundo tivesse sido destruído. Cidadezinha de merda como essa podia ter ficado debaixo d’água. Cachorro burro sai da rua, vai ser atropelado! Puf! Por quem? Nem carroceiro tá na rua hoje. Porra! Nem o armazém do seu Juarez tá aberto. É pra fuder! O veio é o único que abre em feriado, com tornado, maremoto, na segunda vinda de Cristo... o velho não perde a chance de faturar um. Se nem ele abriu hoje, não vou conseguir cigarro. Ai merda! merda! merda! Por que é tão difícil conseguir só um cigarro? O mundo não acabou porra! O que tu tá olhando mendigo dos infernos? Vai catá lixo e me erra! Não posso mais gritar na rua?
Ai! Que pilha de nervos. Será que eu to na TPM? Ideia estúpida parar de marcar só porque o mundo tava pra acabar. Nem eu escapei dessa crença do caralho. Devia ter continuado tomando pílula. Acho que vou no Zaffari da Lima. Preciso de uma farmácia! Preciso de um cigarro! Preciso da energia! Preciso trabalhar e ganhar dinheiro! Preciso... aí que dor! Puta que pariu! O que tá acontecendo comigo? Se pelo menos eu conseguisse chorar...
No fim das contas... quem ia querer morar comigo desse jeito? Ela era a única que me aguentava afinal. Se não fosse a desmiolada que era, não teria me aguentado. Ela deve ter cigarro em casa. Sempre tinha. E pílula também. Ah! Ela certamente sabe seu eu to na TPM. Sempre sabia meu ciclo. Não posso fazer isso. Não vou fazer essa merda. Imagina se chego lá e me dizem que ela se matou?...
(Vou ir até o Zaffari. Eles devem ter gerador próprio)
... É bem capaz dela ter feito isso. Bem coisa dela. Mas e se chego lá e ela tá em casa? Oi, me vê um cigarro? Sabe se eu to na TPM? Quer trepar?
Ai que ódio! Eu não posso tá pensando essas coisas. Não com ela. Eu odeio ela. Quero enterrar um machado naquela cabeça se ela for um zumbi. Droga! Eu nem tenho um machado. Não tenho cigarro, ar-condicionado, limão, a vodka não tá gelada, a cidade tá parada, não tenho mais aquela lagartixa sem rabo....
Por que digo isso? Ela tinha um rabo tão lindo. Que bundinha mais lisa e empinadinha. Tão boa de morder.
Porra! O que eu to fazendo aqui? Eu devia ter ido pro Zaffari. Como vim parar aqui? Merda! merda! merda! Agora o que eu faço? Toco a campainha? Não. Não tem energia. Vou embora. Mas ela deve ter cigarro. É só por isso que eu vim. E pra saber o ciclo. Isso. Só por isso. Peço, pergunto e vou embora. Pronto.
Ai merda! Eu devia ir embora... Agora foda-se! Alguém já ouviu e vem vindo.
Oi Arlete... como você tá?... Pois é, né? O mundo não acabou no fim das contas. Que bom que você não se matou... O que? Não, eu não pensei que. Bem um pouco, talvez. Você era. É meio dramática... O que? Pois é não sei. Não falei com ninguém da galera ainda. Não sei se alguém se matou ou não. Acho que ninguém foi se encontrar lá na frente ontem. Eu tava indo pra lá vê se tá aberto. Mas pensei. Bem. Sei lá. Será que você tem um cigarro pra me conseguir? To sem nenhum e não tem nada aberto. Ah, obrigado... Então você tá bem mesmo?... É, eu sei. Não devia ter te dito aquelas coisas. Mas você também não precisava ter me dito que queria me deixar bem na véspera do fim do mundo... Não interessa Arlete! Três dias antes já é véspera!... Aí! Você sempre me aturou assim... Tá! Tá bom! Escuta! Vamos parar por aqui. Não quero que você chore na minha frente... Porque eu fico com vontade de te abraçar e te beijar e aí vai me dar vontade de trepar... Merda Arlete! Eu sempre usei essa palavra... Porque eu não consigo dizer “fazer amor”. Mas não quer dizer que quando eu dizia trepar ou fuder não tinha amor. É só uma questão de palavras... Tá bom Arlete! Eu vou embora! É melhor assim. Obrigada pelo cigarro. Vê se se cuida. O mundo não acabou, mas parece que só sobrou o inferno.
Ufa! Um cigarro! Até a chuva parece refrescar mais. Ah! Agora essa porra de armazém abriu. Vou logo comprar um estoque de cigarros. E limão.
Olha só. Um carro na rua. Parece que o mundo resolveu sair de casa. Quem sabe se não para de chover, só pra variar? Tá. Também foi pedir demais. Merda! Não quero nem pensar subir esses cinco lances de escadas agora. O que? Luz? Sério? Puta que pariu! É eu dar uma volta na rua e as coisas parecem voltar ao normal!
Ai que maravilha! Ligar meu ar. Fumar. Gelar minha vodka! Ai meu sofá!
Caralho! Eu disse que era com “amor”. Eu usei a palavra “amor”! Amor! Puta que pariu! Ela vai achar que... Eu disse isso? disse? O que ela vai achar? O que vai passar por aquela cabecinha vazia? Ela certo que vai... ah ela vai! Caralho! O que eu fiz? Será que?... Parece que sim. Mas...
Foda-se! Vou trabalhar. Agora eu consigo terminar essa merda.
Ai caralho! O telefone! Onde ficou essa porra? Já vai! já vai! Já vai! Cadê essa merda!? Ah!
Alô? Oi... Vir aqui? Mas eu acabei de sair daí... Ai meu Deus Arlete! Não me entenda mal, mas não foi bem isso que eu quis dizer. É que, nós tinha algo legal, mas... você sabe que era carnal, não era?... Eu sei que eu disse, mas... sim, mas... eu sei que... Tá. Tá bom! Escuta... Me escuta! Você lembra do meu ciclo menstrual? Lembra!? Ótimo! Você não quer passar numa farmácia e me trazer uma pílula? Daí a gente conversa. Vem de noite que agora eu preciso trabalhar. Tá bom. Beijo. Eu também.
Bom... Pelo menos vou ter sexo essa...
Caralho! Eu disse “eu também”? Puta que pariu o que será que ela vai pensar? Eu disse “eu também”?... Porra! Eu disse "eu também".
Assinar:
Comentários (Atom)